Artistas parecidos com Tomie Ohtake: o que procurar
Quem procura artistas próximos a Tomie Ohtake encontra primeiro o grupo que a formou — Manabu Mabe, Kazuo Wakabayashi e Tikashi Fukushima, do Grupo Seibi — e depois vizinhas de procedimento como Mira Schendel e Fayga Ostrower. O que se compara é o gesto contido e o campo de cor, nunca a estatura.
O que Tomie Ohtake faz, tecnicamente
Tomie Ohtake nasceu em Kyoto em 1913 e chegou ao Brasil em 1936, sem pretensão de ficar — a Segunda Guerra fechou o caminho de volta e ela se fixou em São Paulo. Só em 1952, aos 39 anos, iniciou-se em pintura com o artista Keisuke Sugano. O procedimento que a distingue não é um gesto largo, mas um gesto contido dentro de um campo: cor que ocupa a superfície inteira, sem contorno separando figura de fundo.
Entre 1959 e 1962 ela produziu as chamadas pinturas cegas — feitas de olhos vendados, guiando o pincel só pela memória do gesto. Uma delas recebeu o Prêmio de Isenção de Júri no Salão Nacional de Arte Moderna de 1960. No início dos anos 1960 reduziu a paleta a duas ou três cores por tela, o que empurra o olho a percorrer a superfície como quem atravessa uma névoa — geometria que existe, mas amolece nas bordas em vez de se afirmar em linha reta.
Ohtake manteve trocas intensas com artistas do grupo neoconcreto, sobretudo Willys de Castro e Hércules Barsotti, mas nunca foi signatária do movimento — sua entrada na abstração aconteceu por outra porta, a do Grupo Seibi, e chegou tarde, depois dos 30 anos. A superfície lisa e o campo de cor sem empaste, que se tornariam sua marca, vieram desse caminho paralelo, não do Rio de Janeiro dos manifestos.
A abstração nipo-brasileira: um capítulo pouco contado
Em 1935, artistas nipo-brasileiros fundaram em São Paulo o Grupo Seibi (Seibi-kai) — o primeiro núcleo de artes visuais da colônia japonesa no país. A Segunda Guerra interrompeu as atividades, quando reuniões da comunidade japonesa foram restringidas pelo governo brasileiro. O grupo renasceu no pós-guerra com a entrada de quatro nomes que se tornariam referência — Manabu Mabe, Tikashi Fukushima, a própria Tomie Ohtake e, a partir de 1961, Kazuo Wakabayashi.
Mabe pintou sua primeira tela abstrata, Vibração-Momentânea, em 1955, e em 1959 conquistou dois prêmios no mesmo ano — Melhor Pintor Nacional na 5ª Bienal de São Paulo e o Prêmio de Pintura na 1ª Bienal de Paris. Sua linha é o abstracionismo gestual: manchas cromáticas em gestos largos e rápidos, caligrafia japonesa cruzada com espontaneidade controlada. Fukushima seguiu outro caminho — chegou ao Brasil em 1940, foi assistente do pintor Tadashi Kaminagai no Rio, e em 1949 abriu uma oficina de molduras em São Paulo que virou ponto de encontro de artistas, dando origem ao Grupo Guanabara em 1950; sua pintura, mais construtiva, foi descrita como a de um verdadeiro poeta das cores. Wakabayashi chegou a São Paulo em 1961 com o apoio de Mabe e Ohtake, ganhou medalha de ouro no 12º Salão Paulista de Arte Moderna em 1963 e desenvolveu pesquisa matérica própria — colando estampas de tecido japonês sobre a tela, sob camadas de tinta, em texturas que remetem à tradição da xilogravura ukiyo-e.
É um capítulo pouco contado porque a historiografia da abstração brasileira tende a se concentrar no eixo Rio–São Paulo dos manifestos concretos e neoconcretos. A pesquisa nipo-brasileira correu em paralelo, dentro de uma comunidade com suas próprias instituições e salões — e é dali, não do manifesto neoconcreto, que Tomie Ohtake efetivamente veio.
As vizinhas de procedimento, fora desse grupo
Fora do Grupo Seibi, quatro trajetórias tocam procedimentos parecidos sem pertencer ao mesmo núcleo. Mira Schendel, nascida na Europa e refugiada da perseguição de origem judaica durante a guerra — passou por Sófia e Sarajevo antes de se fixar no Brasil em 1949 —, transitou entre o Concretismo e o Neoconcretismo sem se filiar formalmente a nenhum dos dois. Entre 1964 e 1966 produziu as Monotipias, milhares de folhas de papel de arroz japonês (presente de Mário Schenberg) onde linha e palavra quase se dissolvem no vazio da página — um campo tão contido quanto o de Ohtake, mas construído por transparência, não por camada de tinta.
Fayga Ostrower, nascida em Lodz, na Polônia, em 1920, chegou ao Brasil em 1934 e se formou em artes gráficas na Fundação Getúlio Vargas, estudando xilogravura e gravura em metal; uma bolsa Fulbright a levou a Nova York em 1955, para o Atelier 17 de Stanley William Hayter. Tornou-se pioneira da abstração dentro da técnica da gravura, com prêmios na Bienal de São Paulo (1957) e na Bienal de Veneza (1958) — procedimento afim ao de Ohtake, mas trabalhado na matriz e no entalhe, não na tela.
Antonio Bandeira, nascido em Fortaleza em 1922, seguiu caminho mais europeu: bolsista do governo francês em Paris a partir de 1946, aproximou-se dos pintores Wols e Camille Bryen, formando com eles o grupo Banbryols. De volta ao Brasil em 1951, expôs no MAM-SP com uma linguagem que a crítica chamou de abstrato-concreta — gesto mais solto, de raiz informalista europeia, distante do campo contido de Ohtake. Já Iberê Camargo, gaúcho nascido em 1914, chegou à abstração por caminho oposto: sua série Carretéis, iniciada em 1959, é matéria densa e pincelada violenta — o próprio artista dizia que um quadro é um gesto, o último gesto. É um registro diferente do de Ohtake, mais próximo da angústia expressionista do que do campo sereno, mas pertence à mesma década de investigação sobre o que a tinta revela da mão.
E hoje? Os sinais técnicos, não os nomes
Entre artistas em atividade, o que vale procurar não é uma citação de nome, mas um conjunto de sinais técnicos herdados desse período. Gesto contido — que registra a mão sem dramatizar o traço, como em Ohtake, e não o gesto expressionista e denso de um Iberê Camargo. Campo de cor com espaço para respirar, em vez de composição fechada por contorno. Geometria que amolece nas bordas em vez de se impor em linha reta. E, como diagnóstico mais simples, a própria superfície: lisa e sem empaste, como a de Ohtake, ou construída em camada e relevo, mais próxima da pesquisa matérica de um Wakabayashi.
Nenhum desses sinais, isoladamente, prova parentesco — servem para orientar o olhar, não para fechar comparação. Qualquer prática em atividade que se aproxime desse território técnico deveria ser julgada pelo procedimento, não posicionada ao lado de nomes que carregam décadas de acervo institucional, bienal e mercado consolidado.
O olhar do ateliê
Do ateliê
Sou arquiteta antes de ser pintora, e trabalho com campo e camada — decido onde uma cor começa e termina do mesmo jeito que decidia, em projeto, onde uma parede recebe luz e onde ela some. É por isso que reconheço o que Tomie Ohtake faz tecnicamente: o campo contido, a superfície que não se apressa. Mas a diferença é mais honesta de declarar do que a semelhança. Onde a superfície dela é lisa, a minha tem matéria e relevo — camadas de tinta que ficam em pé, pequenas marcas que capturam luz. Não é uma correção do procedimento dela, é outro procedimento. Prefiro marcar essa diferença a sugerir uma proximidade que a obra, olhada de perto, não confirma.
Perguntas frequentes
O que diferencia tecnicamente a pintura de Tomie Ohtake?
<p>O campo contido: cor que ocupa toda a superfície sem contorno separando figura e fundo, paleta reduzida a duas ou três cores por tela desde o início dos anos 1960, e uma geometria que amolece nas bordas em vez de se afirmar em linha reta. As pinturas cegas de 1959–1962, feitas de olhos vendados, são o experimento mais radical desse procedimento.</p>
Tomie Ohtake foi neoconcretista?
<p>Não formalmente. Ela manteve trocas intensas com artistas do grupo neoconcreto, sobretudo Willys de Castro e Hércules Barsotti, mas nunca assinou o movimento nem fez parte de seus manifestos. Sua entrada na abstração veio por outro caminho — o Grupo Seibi, núcleo de artistas nipo-brasileiros em São Paulo.</p>
O que foi o Grupo Seibi?
<p>Fundado em 1935 em São Paulo, foi o primeiro núcleo de artes visuais da comunidade nipo-brasileira no país. Suas atividades foram interrompidas durante a Segunda Guerra e o grupo renasceu no pós-guerra com a entrada de Manabu Mabe, Tikashi Fukushima, Tomie Ohtake e, a partir de 1961, Kazuo Wakabayashi — o núcleo que produziu boa parte da abstração nipo-brasileira do período.</p>
Onde ver obra da Tomie Ohtake?
<p>O Instituto Tomie Ohtake, em São Paulo, leva seu nome e foi projetado por seu filho, o arquiteto Ruy Ohtake, mas funciona como centro de exposições temporárias de arte contemporânea, sem acervo permanente da própria artista. Para ver obra dela em coleção fixa, o caminho é o MASP — que tem Composição em Amarelo (1966) no acervo — além de peças no MAM-SP, MAM-RJ e na Pinacoteca do Estado de São Paulo.</p>
Dá para comprar obra da Tomie Ohtake?
<p>Sim, mas em outro patamar de mercado: suas telas circulam há décadas em leilões e galerias consolidadas, com histórico de bienal, museu e cotação documentada — um mercado secundário de artista já falecida, com preços correspondentes. É um universo diferente do de comprar diretamente de um ateliê em atividade, onde o valor reflete uma obra sem histórico de leilão, não uma promessa de valorização.</p>
Fontes
- Tomie Ohtake — Enciclopédia Itaú Cultural — 2026-07-26
- Tomie Ohtake — Instituto Tomie Ohtake — 2026-07-26
- Instituto Tomie Ohtake — sobre o espaço — 2026-07-26
- Composição em Amarelo, 1966 — MASP — 2026-07-26
- Grupo Seibi-kai completa setenta anos — Ciência e Cultura (SciELO) — 2026-07-26
- Manabu Mabe (1924-1997) — Arremate Arte — 2026-07-26
- Biografia de Manabu Mabe — eBiografia — 2026-07-26
- Kazuo Wakabayashi — Escritório de Arte — 2026-07-26
- Tikashi Fukushima — Escritório de Arte — 2026-07-26
- Mira Schendel — Escritório de Arte — 2026-07-26
- Instituto Fayga Ostrower — Biografia Resumida — 2026-07-26
- Antônio Bandeira — Wikipédia — 2026-07-26
- Biografia de Iberê Camargo — eBiografia — 2026-07-26
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