Quais obras ver no MASP
Os europeus que ninguém espera encontrar em São Paulo
O MASP reúne um dos acervos de arte europeia mais importantes do hemisfério sul, e boa parte dele surpreende justamente por estar em São Paulo, não em Paris ou Madri. Um pequeno grupo de obras concentra essa surpresa.
- Retrato de Suzanne Bloch, de Picasso (1904) — um dos últimos quadros da Fase Azul do artista, retrata a cantora wagneriana Suzanne Bloch em tons de azul quase monocromáticos. Picasso tinha pouco mais de vinte anos e já dominava essa melancolia de paleta antes de virar para o cubismo alguns anos depois.
- O Escolar (O Filho do Carteiro), de Van Gogh (1888) — retrato de Camille Roulin, filho do carteiro Joseph Roulin, amigo do pintor em Arles. As pinceladas curtas e o fundo em cor saturada mostram Van Gogh no auge da fase mais experimental de sua paleta.
- Rosa e Azul – As Meninas Cahen d'Anvers, de Renoir (1881) — retrato das irmãs Elisabeth e Alice Cahen d'Anvers, então com seis e cinco anos. É uma das telas mais fotografadas do museu, e a delicadeza do rosa e do azul pastel esconde uma pincelada solta, quase impressionista, nos detalhes do fundo.
- A Condessa Adèle de Toulouse-Lautrec (1880–82) — retrato da mãe do pintor, ainda adolescente quando pintado. É uma obra bem mais formal do que os cartazes de cabaré pelos quais Toulouse-Lautrec ficou famoso, e vale o contraste com a fase mais conhecida do artista.
- As Tentações de Santo Antão, de Hieronymus Bosch (cerca de 1500) — um estudo relacionado ao tríptico mais famoso do pintor, hoje no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa. É uma das obras mais antigas do acervo, e recompensa quem se aproxima para encontrar as criaturas híbridas escondidas nos detalhes.
O acervo brasileiro, e por que ele importa
O MASP não trata a arte brasileira como anexo do acervo europeu — ela ocupa o mesmo salão, ao lado dos mesmos cavaletes. Três obras ajudam a entender por quê.
- O Lavrador de Café, de Candido Portinari (1934) — antes da fama internacional que viria com os murais do Rio de Janeiro, Portinari já retratava o trabalhador rural com o corpo alongado e as mãos enormes que se tornariam sua assinatura. É uma das primeiras aparições desse vocabulário visual que definiria boa parte da pintura social brasileira das décadas seguintes.
- O Ateliê do Artista, de Almeida Júnior (1886) — o próprio pintor retratado em seu espaço de trabalho, um dos raros autorretratos indiretos da pintura brasileira do século 19. Almeida Júnior foi um dos primeiros a pintar o caboclo e o trabalhador rural sem idealização acadêmica, e este quadro mostra o processo por trás desse olhar.
- A Estudante, de Anita Malfatti (1915–16) — pintada logo após o período de formação da artista em Berlim e Nova York, é um retrato de pinceladas largas e cor expressionista que antecipa em anos o escândalo que a mesma Malfatti provocaria na Semana de Arte Moderna de 1922.
Ver essas obras a poucos metros de Picasso e Renoir, sem qualquer letreiro de "seção brasileira", é uma declaração curatorial: aqui não existe centro e periferia, existe acervo.
Os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi
A experiência mais radical do MASP não é uma obra isolada — é o jeito como o acervo inteiro é exibido. Na sala ampla do segundo andar, as telas não estão penduradas na parede: estão soltas, presas em cavaletes de vidro temperado apoiados sobre blocos de concreto, dispostas livremente pelo espaço.
A arquiteta Lina Bo Bardi projetou esse sistema para a inauguração do prédio da Avenida Paulista, em 1968. A ideia era eliminar a hierarquia entre as obras — sem moldura de honra, sem sala nobre, sem sequência obrigatória — e devolver ao visitante a liberdade de decidir o próprio percurso. O sistema foi retirado em 1996 e reincorporado ao acervo em 2015, numa reconstrução fiel do desenho original.
Um detalhe do projeto passa despercebido por quem nunca ouviu falar dele: a ficha técnica de cada obra — título, autor, ano — fica no verso do cavalete, não ao lado do quadro. Lina Bo Bardi queria que o primeiro encontro do visitante fosse com a pintura, não com a legenda. Só depois de olhar é que se descobre o nome.
Como visitar em 2 horas
Duas horas não cobrem os cerca de 10 mil itens do acervo do MASP, mas são suficientes para o essencial se a visita for planejada com um pequeno roteiro, não improvisada na entrada.
- Vá direto para o salão dos cavaletes, no segundo andar — é ali que está a maior concentração das obras citadas acima, europeias e brasileiras lado a lado.
- Escolha de quatro a seis obras como âncoras antes de entrar (a lista das duas seções anteriores é um bom ponto de partida) e deixe o resto da visita ser descoberta livre entre os cavaletes — é exatamente o percurso que Lina Bo Bardi imaginou.
- Resista ao impulso de ler a ficha técnica primeiro: olhe a pintura, forme uma impressão, só depois vá ao verso do cavalete conferir o nome.
- Reserve os últimos minutos para caminhar sem destino por uma fileira que não estava no seu roteiro — é onde moram as descobertas que nenhuma lista prevê.
Confirme o calendário de exposições temporárias e as informações práticas de visita direto no site oficial do MASP antes de ir — o acervo permanente descrito aqui é o que fica.
O olhar do ateliê
O olhar do ateliê
Antes de pintar, eu me formei em arquitetura — e o gesto de Lina Bo Bardi nos cavaletes de vidro do MASP é, pra mim, um dos mais radicais do século 20 em qualquer museu do mundo. Ela não escondeu o suporte da obra: transformou o próprio ato de sustentar um quadro em parte da experiência de olhar. E fez algo ainda mais ousado, que poucos reparam — colocou a ficha técnica no verso do cavalete, de costas para o visitante. O nome do artista vem depois. Primeiro vem a pintura, sozinha, sem crachá.
É a mesma lógica que uso quando mando pro colecionador uma foto do verso da tela antes de qualquer coisa — o bastidor, a costura da tela, minha assinatura e a data escritas à mão atrás, longe da imagem que todo mundo vê primeiro. Não é curiosidade técnica: é mostrar que uma obra tem uma parte que a maioria nunca olha, e que essa parte também é verdade sobre ela. Lina fez isso com o museu inteiro; eu faço isso com cada quadro que sai do ateliê.
Perguntas frequentes
Quais são as obras mais importantes do MASP?
Não existe uma lista oficial única, mas Retrato de Suzanne Bloch (Picasso), Rosa e Azul – As Meninas Cahen d'Anvers (Renoir) e O Lavrador de Café (Portinari) estão entre as mais citadas do acervo, ao lado de obras como O Escolar (Van Gogh) e As Tentações de Santo Antão (Bosch).
O que são os cavaletes de vidro do MASP?
São suportes de vidro temperado sobre base de concreto, projetados por Lina Bo Bardi para exibir as telas soltas no espaço, sem parede e sem hierarquia entre as obras. Foram removidos em 1996 e reincorporados ao acervo em 2015.
É verdade que a ficha técnica das obras fica atrás do cavalete?
Sim. Lina Bo Bardi projetou o sistema para que o visitante encontrasse primeiro a pintura, sem o nome do artista à vista — a identificação de cada obra fica no verso do cavalete de vidro.
A obra de Alyne Perfeito está no acervo do MASP?
Não. O Perfeito Studio é um ateliê independente, sediado em Brasília — não integra o acervo do MASP nem de nenhum museu. A relação que existe é de olhar: uma artista formada em arquitetura observando um dos projetos expográficos mais radicais do país.
Vale a pena visitar o MASP mesmo sem saber muito de arte?
Vale, e talvez seja até melhor: o próprio desenho dos cavaletes de Lina Bo Bardi foi pensado para eliminar a hierarquia entre "quem entende" e "quem não entende" de arte, deixando o primeiro encontro ser só entre o visitante e a pintura, sem legenda antecipada.
Fontes
- Retrato de Suzanne Bloch, 1904 - Pablo Picasso — MASP
- O escolar (O filho do carteiro - Gamin au Képi), 1888 - Vincent van Gogh — MASP
- Rosa e azul - As meninas Cahen d'Anvers, 1881 - Pierre-Auguste Renoir — MASP
- A condessa Adèle de Toulouse-Lautrec, 1880-82 — MASP
- As tentações de santo Antão, circa 1500 - Hieronymus Bosch — MASP
- O lavrador de café, 1934 - Candido Portinari — MASP
- O ateliê do artista, 1886 - José Ferraz de Almeida Júnior — MASP
- A estudante, 1915-16 - Anita Malfatti — MASP
- MASP traz de volta os cavaletes de vidro de Lina Bo Bardi — ArchDaily Brasil
- Masp volta a usar os cavaletes de Lina Bo Bardi em sua pinacoteca — Guia das Artes
- Do mobiliário à obra de arte: o cavalete de vidro do MASP à luz da Conservação e Restauração — Mosaico/FGV
- Pink and Blue, the Cahen d'Anvers Girls, by Pierre-Auguste Renoir — Wikimedia Commons (imagem, domínio público)