Journal · Técnicas e materiais

Pintura abstrata tem esboço, ou o artista começa direto na tela?

Depende do artista e da técnica: pintura abstrata tem duas tradições legítimas de processo — uma passa por estudos preparatórios antes da tela final, como fazia Kandinsky, e a outra decide a composição durante a própria execução, dentro de escolhas de material e formato já feitas antes. Nenhuma das duas é mais abstrata que a outra — são só lugares diferentes para a mesma decisão.

Detalhe da textura de Origin of Light (60 x 80 cm), técnica mista com acrílica e folha de ouro sobre tela — Alyne Perfeito, Perfeito Studio
Detalhe de Origin of Light (60 × 80 cm), Heart of Chaos — a estratificação de acrílica e folha de ouro registra decisões tomadas direto na tela, não num estudo em papel. Perfeito Studio. Alyne Perfeito, Perfeito Studio

Duas tradições de processo abstrato: planejar antes ou decidir na hora

Ao longo do século XX, pintores abstratos se dividiram, na prática, entre duas lógicas de trabalho que não se misturam facilmente. Uma parte planeja a composição antes de tocar a tela final — produz estudos, testa variações de cor e enquadramento, resolve o problema formal no papel ou em telas menores, e só então parte para a versão definitiva. Outra parte decide a composição durante a própria execução, já com outras variáveis resolvidas de antemão — o material, o formato do suporte, a paleta —, deixando a disposição final dos elementos para o momento em que a tinta encontra a superfície.

Nenhuma das duas é mais "abstrata" ou mais legítima que a outra. São estratégias diferentes de organizar a mesma liberdade que a pintura não figurativa abriu: onde não há um objeto externo a copiar, a decisão sobre o que vai para a tela precisa acontecer em algum lugar — só muda o momento em que ela acontece.

Kandinsky e os estudos preparatórios: o método da elaboração lenta

Wassily Kandinsky é o exemplo mais documentado da primeira tradição. Segundo o registro da The Phillips Collection sobre os estudos preparatórios da obra que resultaria em Painting with White Border (1913), o costume do pintor já era começar por estudos — mas, segundo a instituição, "never before had he produced so many studies in anticipation of a final painting" — "nunca antes ele havia produzido tantos estudos em antecipação a uma pintura final". O registro não detalha a técnica exata de cada estudo individual: o dado verificável é a insistência do processo, não uma lista de materiais.

Os estudos também não eram exercícios soltos. Ainda segundo a Phillips Collection, "this three-pronged troika form appears in every preparatory study for the painting" — "essa forma de troica de três pontas aparece em todos os estudos preparatórios da pintura", numa referência ao trenó puxado por três cavalos que o pintor associava a Moscou e à Rússia. Um mesmo motivo atravessando todos os estudos é o que mostra refinamento em torno de uma ideia fixa — não uma sequência de tentativas soltas até acertar por acaso.

Quando a decisão acontece na tela, não no papel

A tradição oposta não é ausência de planejamento — é planejamento deslocado para outro lugar. Em vez de um estudo compositivo no papel, o que se decide antes é o material, o formato do suporte, a paleta e, às vezes, a técnica de aplicação; a disposição final dos elementos fica para o momento em que o artista está diante da tela. É uma forma de trabalhar tão deliberada quanto a de Kandinsky — só que a deliberação acontece em tempo real, gesto a gesto, em vez de sessão a sessão de estudo.

O que exatamente conta como "decisão em tempo real" nessa segunda tradição — o que é o gesto controlado do artista e o que é o material se comportando sozinho, como a tinta que escorre ou duas camadas que se fundem — é uma pergunta distinta desta, e é o tema do texto irmão deste Journal, sobre gesto e acaso na pintura abstrata. Aqui a pergunta é anterior: existe estudo prévio ou não; lá, a pergunta é sobre o que acontece depois que a execução já começou.

Por que "tem esboço?" é a pergunta errada para abstração

Perguntar se uma pintura abstrata "tem esboço" pressupõe que só existe uma forma válida de planejar — a do papel antes da tela. Na prática, o planejamento pode estar em pelo menos três lugares diferentes: no estudo compositivo (Kandinsky), na escolha prévia de material e formato (a tradição da execução direta) ou na experiência acumulada do próprio artista, que decide em segundos o que anos de repetição já ensinaram. Nenhum desses três é mais abstrato nem mais sério que os outros — são só respostas diferentes para a mesma pergunta de onde colocar a decisão.

Isso também explica por que peças dentro de uma mesma série podem nascer de processos diferentes. Na série Heart of Chaos, por exemplo, cada obra registra o instante em que a escuridão cede à luz — mas o caminho até esse instante não precisa ser idêntico de uma tela para a outra, mesmo dentro da mesma investigação.

O olhar do ateliê

O olhar do ateliê

Eu não faço esboço de composição no papel antes de uma peça de Heart of Chaos — nunca fiz um desenho prévio de onde o núcleo de luz vai explodir dentro do vazio escuro. O que decido antes é outra coisa: o formato e a proporção da tela, que penso com a régua de quem é arquiteta antes de ser pintora, e a paleta — quais metálicos entram, se o acabamento vai puxar mais para o fosco ou para o brilhante. Essas decisões acontecem numa mesa, com amostras pequenas de tinta testadas num pedaço de tela que nunca vai ser exposto, não numa folha de papel com o desenho da composição final.

A composição em si — onde exatamente o núcleo nasce, até onde o metálico avança — só se resolve com a tela grande na minha frente. Não é falta de planejamento: é planejamento que aconteceu num lugar diferente do que as pessoas costumam chamar de esboço. Quando alguém pergunta se eu "desenhei antes de pintar", a resposta mais honesta é que desenhei outra coisa — o espaço que a pintura ia precisar, não a pintura em si.

Perguntas frequentes

Toda pintura abstrata tem esboço antes da tela final?

Não. Existem duas tradições legítimas: uma passa por estudos preparatórios no papel ou em telas menores antes da versão definitiva, como fazia Kandinsky; outra decide a composição durante a própria execução, tendo já resolvido de antemão o material, o formato e a paleta. A ausência de um desenho prévio no papel não significa ausência de planejamento — significa que o planejamento aconteceu em outro momento e sobre outras variáveis.

Kandinsky sempre fazia muitos estudos preparatórios?

Segundo a Phillips Collection, o costume habitual de Kandinsky já era começar por estudos preparatórios. Para a obra que resultou em Painting with White Border (1913), porém, ele produziu mais estudos do que para qualquer pintura anterior, com um mesmo motivo — a troica de três cavalos — presente em todos eles. Isso mostra intensificação do método num caso específico, não um padrão fixo repetido em toda a sua obra.

O ateliê da Alyne Perfeito faz esboço antes de pintar?

Não no sentido de um desenho da composição final no papel. O que é decidido antes é o formato, a proporção e a paleta da tela; a disposição final dos elementos — onde o núcleo de luz ou o vazio escuro vão ocupar a superfície — é resolvida durante a execução, com a tela grande já montada.

Dá para saber, olhando a obra pronta, se houve estudo prévio ou execução direta?

Nem sempre com certeza, mas alguns sinais ajudam: uma composição muito refinada, com o mesmo motivo central repetido em várias versões prévias — como aconteceu com os estudos de Kandinsky para Painting with White Border —, sugere planejamento em estudo; uma composição única, sem variações prévias conhecidas, é mais compatível com decisão tomada direto na tela. Nenhum dos dois sinais é prova definitiva sem acesso ao processo real do artista.

Pintar sem esboço no papel é sinal de menos domínio técnico?

Não. A tradição da execução direta ainda depende de decisões tomadas antes — material, formato, paleta, técnica — só que elas não ficam registradas num desenho. O domínio técnico aparece na consistência dessas escolhas prévias e na capacidade de decidir bem durante a execução, não na existência ou ausência de um papel com o rascunho da composição.

Isso muda o valor de uma obra abstrata?

O processo — estudo prévio ou execução direta — não é, isoladamente, um fator de preço; o que pesa no valor de uma obra é escala, técnica, materiais e série, como em qualquer peça do acervo. O processo importa mais para a leitura curatorial da obra: entender se uma composição nasceu de refinamento sobre estudos ou de decisão no calor da execução ajuda a situar a peça dentro da pesquisa do artista.

Quer ver como uma peça de Heart of Chaos foi decidida, camada por camada?

Origin of Light guarda no relevo a marca de decisões tomadas direto na tela. Fale com o ateliê para fotos de detalhe em alta resolução ou para agendar uma visita.

Obras disponíveis

Fontes

  1. The Phillips Collection — 2026-09-13
  2. The Phillips Collection — 2026-09-13

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