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Modernismo brasileiro: um resumo

O modernismo brasileiro nasceu formalmente na Semana de Arte Moderna, realizada de 13 a 17 de fevereiro de 1922 no Theatro Municipal de São Paulo, reunindo pintores como Anita Malfatti, escritores como Oswald e Mário de Andrade e o escultor Victor Brecheret. O movimento buscava romper com o academicismo e construir uma linguagem artística brasileira própria.
A Estudante, óleo sobre tela de Anita Malfatti (1915-16) — reprodução do acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP)
Anita Malfatti, A Estudante, 1915-16, óleo sobre tela, 76,5 x 61 cm — pintada durante a formação da artista em Berlim e Nova York, dois anos antes do escândalo de 1917 que a projetaria como precursora do modernismo brasileiro. Doada pela própria artista ao museu em 1949. A Estudante, Anita Malfatti (1889–1964). Museu de Arte de São Paulo (MASP). Fonte: masp.org.br.

O que foi a Semana de Arte Moderna de 1922

A Semana de Arte Moderna aconteceu de 13 a 17 de fevereiro de 1922, no Theatro Municipal de São Paulo. Foi organizada por um grupo de escritores, artistas plásticos e músicos insatisfeitos com o academicismo que dominava a arte brasileira, e reuniu cerca de 100 obras entre pintura, escultura e projetos arquitetônicos, além de conferências e concertos nas noites de 13, 15 e 17 de fevereiro.

Entre os pintores expuseram Anita Malfatti, Emiliano Di Cavalcanti, John Graz, Ferrignac, Zina Aita, Vicente do Rego Monteiro, Yan de Almeida Prado e Antônio Paim Vieira. Na escultura, Victor Brecheret, Wilhelm Haarberg e Hildegardo Leão Veloso; na arquitetura, Antônio Garcia Moya e Georg Przyrembel. Entre os escritores que assinaram conferências e leram poemas estavam Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Graça Aranha, Manuel Bandeira, Menotti Del Picchia, Guilherme de Almeida e Ronald de Carvalho — e a pianista Guiomar Novaes e o compositor Heitor Villa-Lobos se apresentaram nas noites de música.

O objetivo comum, apesar das diferenças entre os participantes, era romper com a arte de importação e construir uma linguagem própria para o Brasil — em cor, tema e forma.

Anita Malfatti: a pintora que antecipou o escândalo de 1922

Anita Malfatti nasceu em São Paulo em 2 de dezembro de 1889 e morreu na mesma cidade em 6 de novembro de 1964. Estudou pintura em Berlim entre 1910 e 1914, na Academia de Belas Artes, com o expressionista Fritz Burger e o pintor Lovis Corinth — tendo contato direto com a arte moderna europeia em mostras como a Sonderbund, em Colônia. Entre 1915 e 1916, completou formação em Nova York, na Art Students League e na Independent School of Art, sob orientação de Homer Boss.

Em dezembro de 1917, sua primeira exposição individual em São Paulo — com a tela A Boba entre os destaques — provocou reação conservadora. Em 20 de dezembro de 1917, o escritor Monteiro Lobato publicou, n'O Estado de S. Paulo, uma crítica dura ao trabalho. A defesa pública veio de jovens como Oswald de Andrade e Emiliano Di Cavalcanti, e o episódio é apontado como um dos estopins que levaram à Semana de 1922 — onde Anita participou com 22 obras.

A imagem que abre esta página é A Estudante (1915-16), óleo sobre tela hoje no acervo do Museu de Arte de São Paulo (MASP), doada pela própria artista ao museu em 1949. A obra é anterior ao escândalo de 1917 e já mostra as pinceladas largas e o contraste cromático que marcariam sua fase expressionista.

Tarsila do Amaral: Pau-Brasil e Antropofagia

Ao contrário do que às vezes se assume, Tarsila do Amaral (1886-1973) não esteve na Semana de Arte Moderna — em fevereiro de 1922 ela ainda estava em Paris. Voltou a São Paulo naquele mesmo ano e passou a integrar o Grupo dos Cinco, ao lado de Oswald de Andrade, Mário de Andrade, Anita Malfatti e Menotti Del Picchia.

Sua fase Pau-Brasil, entre 1923 e 1925, nasceu junto com o Manifesto Pau-Brasil que Oswald de Andrade publicou em 1924 — um chamado por uma arte brasileira "de exportação", construída a partir de tema, cor e paisagem nacionais. A pintura E.F.C.B. (Estrada de Ferro Central do Brasil), de 1924, é um dos marcos dessa fase.

Depois, entre 1928 e 1929, veio a fase Antropofagia — batizada a partir do Manifesto Antropofágico que Oswald de Andrade escreveu inspirado pela tela Abaporu, que Tarsila pintou em 1928 como presente para ele. A ideia central era "devorar" a cultura europeia para produzir, a partir dela, uma cultura genuinamente brasileira.

As mulheres do modernismo além de Anita e Tarsila

Anita Malfatti e Tarsila do Amaral são, segundo o programa educativo do MASP, os dois nomes femininos que mais se destacam quando se pensa no modernismo brasileiro — mas o programa educativo do MASP questiona por que só esses dois costumam ser lembrados, apontando que essa visibilidade acaba ocultando a trajetória de outras artistas do período.

Entre elas, o MASP cita a escultora Adriana Janacópulos, autora da obra Mulher para o prédio do Ministério da Educação e Saúde (1937-1947); Maria Martins, que desenvolveu boa parte da carreira nos Estados Unidos entre 1939 e 1947 antes de voltar ao Brasil; e as escultoras imigrantes Pola Rezende, Felícia Leirner e Liuba Wolf, hoje pouco presentes na historiografia da arte brasileira. Lygia Clark e Mary Vieira, ambas ligadas à abstração construtiva, conquistaram projeção internacional já na década de 1960 — mas de forma desigual: enquanto Lygia Clark foi consagrada pela crítica e pela historiografia da arte brasileira, Mary Vieira permaneceu, segundo o MASP, relegada a um lugar marginal.

Modernismo brasileiro x modernismo europeu: o que muda

Os nomes centrais do modernismo brasileiro se formaram na Europa: Anita Malfatti em Berlim, em contato direto com o expressionismo alemão; Tarsila do Amaral em Paris, próxima ao cubismo. O projeto que trouxeram para o Brasil, porém, não era reproduzir essas vanguardas — era usar as ferramentas formais delas (a cor livre da representação fiel, a geometria, a ruptura com o academicismo) para construir uma linguagem visual brasileira, a partir de tema, paisagem e material nacionais.

É essa diferença de projeto — europeu como ruptura formal, brasileiro como ruptura formal a serviço de uma identidade nacional — que separa os dois movimentos, mesmo com décadas de diálogo direto entre eles.

O olhar do ateliê

O olhar do ateliê

No ateliê não trabalhamos em diálogo direto com o modernismo de 1922 — a gramática de Alyne é a abstração contemporânea, não a figuração nacionalista das décadas de 1920. Mas há um ponto de contato de procedimento que vale nomear, porque é real: como Tarsila em sua fase Pau-Brasil, Alyne parte de material bruto — pigmento mineral, pó metálico, folha de ouro — para construir uma cor que não decora, estrutura. É a formação em arquitetura entrando na tela: tratar a superfície como algo que se constrói em camadas, não como ilustração de um tema.

Isso fica mais visível na série Terra & Ether, onde a investigação é literalmente geológica — estratos de pigmento que se acumulam como sedimento. Não é uma citação ao modernismo, é uma coincidência de método: os dois partem da matéria bruta do Brasil para chegar a alguma coisa que só existe em tela.

Perguntas frequentes

O que foi a Semana de Arte Moderna de 1922?

Foi um evento realizado de 13 a 17 de fevereiro de 1922 no Theatro Municipal de São Paulo, reunindo cerca de 100 obras de pintura, escultura e arquitetura, além de conferências e concertos nas noites de 13, 15 e 17. Organizada por escritores e artistas insatisfeitos com o academicismo, é considerada o marco formal de fundação do modernismo brasileiro, reunindo nomes como Anita Malfatti, Victor Brecheret, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Heitor Villa-Lobos.

Quem foram as principais artistas mulheres do modernismo brasileiro?

Anita Malfatti e Tarsila do Amaral são, segundo o programa educativo do MASP, os dois nomes femininos que mais se destacam quando se pensa no modernismo brasileiro — mas o próprio museu observa que essa visibilidade esconde outras trajetórias, como as das escultoras Adriana Janacópulos, Maria Martins, Pola Rezende, Felícia Leirner e Liuba Wolf, e das artistas ligadas à abstração construtiva Lygia Clark e Mary Vieira — ambas com projeção internacional já nos anos 1960, mas Mary Vieira permaneceu à margem da historiografia enquanto Lygia Clark foi consagrada pela crítica.

Modernismo brasileiro é o mesmo que modernismo europeu?

Não. Os artistas centrais do modernismo brasileiro estudaram na Europa — Anita Malfatti em Berlim, em contato com o expressionismo; Tarsila do Amaral em Paris, próxima ao cubismo — mas usaram essas ferramentas formais para outro projeto: construir uma linguagem visual brasileira a partir de tema, paisagem e material nacionais, e não para reproduzir a vanguarda europeia. É uma ruptura formal a serviço de uma identidade nacional, não uma cópia.

Tarsila do Amaral fez parte de que fase do modernismo?

Tarsila não esteve na Semana de Arte Moderna de 1922 — estava em Paris na época e voltou a São Paulo depois do evento, quando passou a integrar o Grupo dos Cinco. Ela liderou as duas fases seguintes do movimento: a fase Pau-Brasil (1923-1925), ligada ao manifesto de Oswald de Andrade de 1924, e a fase Antropofagia (1928-1929), inaugurada pela pintura Abaporu, de 1928.

O modernismo brasileiro influencia arte contemporânea hoje?

Sim, no sentido de que consolidou uma pergunta que a arte brasileira ainda carrega: como construir uma linguagem visual a partir de material, cor e paisagem nacionais, sem depender de importar um estilo pronto. Artistas contemporâneos que trabalham com pigmento mineral, textura e matéria bruta, inclusive fora do circuito de galeria, dialogam com essa mesma pergunta, mesmo sem citar diretamente o modernismo histórico de 1922.

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