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Quem foi Hilma af Klint

Hilma af Klint (1862-1944) foi uma pintora sueca que, entre 1906 e 1907, criou as primeiras composições inteiramente abstratas do Ocidente — anos antes de Kandinsky, Mondrian e Malevich. Guiada por sessões espíritas e pela teosofia, manteve a obra em segredo por decisão própria e só foi reconhecida publicamente décadas depois de morrer.

The Ten Largest, No. 7 – Adulthood, de Hilma af Klint, 1907, têmpera sobre papel montado em tela — Moderna Museet, Estocolmo (domínio público)
Hilma af Klint, The Ten Largest, No. 7 – Adulthood, 1907, têmpera sobre papel montado em tela, 315 x 235 cm — parte da série As Dez Maiores, dentro do conjunto Pinturas para o Templo (1906-1915). The Ten Largest, No. 7 – Adulthood, Hilma af Klint (1862–1944). Moderna Museet, Estocolmo, acervo da Hilma af Klint Foundation, nº HAK108. Domínio público — a autora morreu em 1944, mais de 70 anos atrás. Fonte: Wikimedia Commons.

Da Academia Real de Estocolmo às sessões espíritas: quem foi Hilma af Klint

Hilma af Klint nasceu em 26 de outubro de 1862, no Palácio de Karlberg, em Estocolmo, quarta de cinco filhos de um capitão da marinha sueca. Ainda jovem, estudou no Tekniska skolan (hoje Konstfack) e, aos vinte anos, foi admitida na Real Academia de Belas Artes de Estocolmo, onde cursou pintura de retrato, desenho botânico e paisagem entre 1882 e 1887. Formou-se com honras e recebeu, como prêmio, um ateliê no próprio prédio da Academia — um começo de carreira absolutamente convencional para uma pintora do seu tempo.

O que não era convencional começou em paralelo: aos dezessete anos, em 1879, af Klint participou de sua primeira sessão espírita. Anos depois, já formada, ela e quatro outras artistas — Anna Cassel, Cornelia Cederberg, Sigrid Hedman e Mathilda Nilsson — formaram o grupo De Fem ("As Cinco"), nascido da Sociedade Edelweiss e dedicado a sessões regulares em busca de contato com entidades que chamavam de "Altos Mestres". O grupo combinava prática espírita com a Teosofia de Helena Blavatsky e com a filosofia rosacruz de Christian Rosenkreutz — o pano de fundo intelectual que, décadas depois, moldaria toda a obra abstrata de af Klint.

Primordial Chaos e as Pinturas para o Templo: abstração cinco anos antes de Kandinsky

Entre novembro de 1906 e março de 1907 — aos 44 anos — Hilma af Klint pintou a série Primordial Chaos, seu primeiro conjunto de obras inteiramente abstratas: composições de cor, espiral e forma sem qualquer referência a objeto reconhecível. É esse grupo de trabalhos que a crítica de arte hoje aponta como anterior às primeiras composições abstratas de Wassily Kandinsky, Piet Mondrian e Kazimir Malevich — Kandinsky, mais tarde, reivindicaria ter pintado o primeiro quadro abstrato do mundo em 1911, cerca de cinco anos depois de af Klint.

Primordial Chaos foi o início de um projeto muito maior: entre 1906 e 1915, em duas fases (com uma interrupção entre 1908 e 1912), af Klint produziu as Pinturas para o Templo, um conjunto de 196 obras organizadas em séries e subséries. A mais conhecida delas, As Dez Maiores (1907), reúne telas monumentais — entre 240 x 320 cm e 315 x 235 cm, conforme o painel, têmpera sobre papel montado em tela — que representam, em forma abstrata, quatro fases da vida humana: infância, juventude, idade adulta e velhice.

Teosofia e antroposofia: uma abstração com propósito espiritual, não decorativo

A abstração de af Klint não nasceu de uma busca formal por reduzir a pintura a cor e linha, como aconteceria depois com outros pioneiros — nasceu de um sistema de crenças. Ela entendia sua produção como registro de um conhecimento recebido, não como invenção própria: um vocabulário de espirais, círculos concêntricos e pares de opostos (masculino/feminino, matéria/espírito) que funcionava, para ela, como diagrama de forças invisíveis.

Em 1908, af Klint conheceu Rudolf Steiner, fundador da Antroposofia, durante uma visita dele a Estocolmo. Os dois se encontraram de novo em 1920, no Goetheanum, sede do movimento em Dornach, na Suíça, e af Klint passou longos períodos ali entre 1921 e 1930. A antroposofia — e antes dela a teosofia — não foi ilustração de tema para af Klint: foi a estrutura que organizava o que ela pintava e por quê.

Por que só foi reconhecida décadas depois de morrer

Hilma af Klint morreu em 21 de outubro de 1944, em Djursholm, na Suécia, em decorrência de um acidente de trânsito, e foi enterrada no Galärvarvskyrkogården, em Estocolmo. Ao longo da vida, nunca expôs publicamente nenhuma de suas obras abstratas — o próprio conjunto de crenças que embasava a pintura incluía a convicção de que o público ainda não estava preparado para compreendê-la.

Em seu testamento, af Klint deixou toda a coleção de pinturas abstratas a seu sobrinho, o vice-almirante Erik af Klint, com a instrução de que o conjunto ficasse guardado em sigilo por, no mínimo, vinte anos após sua morte. A coleção só começou a ser aberta ao público no fim da década de 1960. O Moderna Museet, em Estocolmo, chegou a recusar uma doação da obra em 1970; só em fevereiro de 2018 formalizou um acordo de cooperação de longo prazo com a Fundação Hilma af Klint, guardiã da coleção que af Klint deixou em testamento ao sobrinho — mais de 1.200 pinturas e 125 cadernos.

O reconhecimento amplo veio com a mostra "Hilma af Klint: Paintings for the Future", no Solomon R. Guggenheim Museum, em Nova York (2018-2019) — a exposição mais visitada da história do museu até então, com mais de 600 mil visitantes.

O olhar do ateliê

O que a busca de af Klint pelo invisível tem a ver com o meu processo

Hilma af Klint não pintava para preencher parede: pintava para registrar algo que dizia vir de além do olhar comum, um sistema codificado em forma geométrica. Não trabalho a partir de sessão espírita nem tenho uma cosmologia por trás da tela, mas reconheço o impulso de tentar dar forma visível a algo que normalmente não se vê. Em Celestial Plan, parto do mesmo problema por outro caminho: uma superfície inteiramente preta, texturas concêntricas que se repetem como se fossem ondas de tempo, e fragmentos de folha de ouro espalhados como se fossem constelações — pontos que aparecem e desaparecem conforme a luz do ambiente muda ao longo do dia.

Não chamo isso de mensagem recebida; chamo de tentativa de pintar contenção, o que sobra quando se tira o excesso. A diferença entre af Klint e o que faço é de raiz: ela documentava algo que dizia lhe ser ditado; eu construo camada sobre camada até a imagem parecer ter sempre existido ali. Mas o impulso de usar a pintura para apontar para o que está além do visível, sem ilustrar literalmente nada, é o mesmo fio que atravessa qualquer abstração que faça o espectador ficar mais devagar diante da tela.

Perguntas frequentes

Hilma af Klint pintou de forma abstrata antes de Kandinsky?

Sim. Entre novembro de 1906 e março de 1907, af Klint pintou a série Primordial Chaos, seu primeiro conjunto de obras inteiramente abstratas — cerca de cinco anos antes de Kandinsky, que mais tarde reivindicou ter pintado o primeiro quadro abstrato do mundo em 1911. A diferença é que af Klint manteve esse trabalho em sigilo durante toda a vida, então, historicamente, Kandinsky ficou associado ao marco da abstração por décadas, até a obra dela ser redescoberta e datada com precisão pela pesquisa acadêmica recente.

Por que Hilma af Klint só ficou famosa décadas depois de morrer?

Porque ela mesma escolheu isso. Af Klint nunca expôs suas pinturas abstratas em vida e, no testamento, instruiu que a coleção ficasse guardada em sigilo por no mínimo vinte anos após sua morte, em 1944 — ela acreditava que o público da época não estava preparado para compreender o trabalho. A coleção só começou a circular no fim dos anos 1960, e o reconhecimento internacional amplo só veio com a retrospectiva do Guggenheim em Nova York, em 2018-2019, mais de 70 anos depois de sua morte.

Hilma af Klint tinha ligação com espiritismo?

Sim, uma ligação profunda e documentada. Aos dezessete anos, em 1879, participou de sua primeira sessão espírita, e anos depois cofundou o grupo De Fem ("As Cinco") com outras quatro artistas, dedicado a sessões regulares em busca de contato com entidades que chamavam de "Altos Mestres". Essa prática se combinava com o estudo da Teosofia de Helena Blavatsky e, a partir de 1908, com a Antroposofia de Rudolf Steiner, que af Klint conheceu pessoalmente em Estocolmo e, mais tarde, na sede do movimento na Suíça.

Onde estão as obras de Hilma af Klint hoje?

A coleção que af Klint deixou em testamento ao sobrinho — mais de 1.200 pinturas e 125 cadernos — pertence hoje à Fundação Hilma af Klint, sob acordo de cooperação de longo prazo com o Moderna Museet, em Estocolmo, firmado em fevereiro de 2018. Obras específicas, como as da série As Dez Maiores, circulam também em grandes exposições internacionais — a mais notável foi a retrospectiva do Solomon R. Guggenheim Museum, em Nova York, entre 2018 e 2019, vista por mais de 600 mil pessoas.

Por que Hilma af Klint é citada em toda lista de pioneiras da abstração?

Porque a datação de suas obras muda o marco histórico da abstração ocidental: a série Primordial Chaos, de 1906-1907, antecede as primeiras composições abstratas de Kandinsky, Mondrian e Malevich em anos. Como ela manteve o trabalho em sigilo até décadas após a morte, esse fato só ganhou consenso amplo com a redescoberta e a pesquisa acadêmica recente — o que faz de af Klint um caso raro de reescrita de história da arte já dentro do século 21.

Fontes

  1. Wikipedia — 2026-08-02
  2. Wikipedia — 2026-08-02
  3. Wikipedia — 2026-08-02
  4. Wikipedia — 2026-08-02
  5. Wikipedia — 2026-08-02
  6. Tate Etc. (Tate) — 2026-08-01
  7. Wikipedia — 2026-08-02
  8. Wikipedia — 2026-08-02
  9. Wikipedia — 2026-08-02
  10. Wikipedia — 2026-08-02
  11. Wikimedia Commons — 2026-08-02
  12. Perfeito Studio — fonte interna do acervo — 2026-08-02

Espiritualidade construída pela contenção

Celestial Plan trabalha o mesmo impulso de af Klint por outro caminho: textura concêntrica sobre fundo negro e fragmentos de folha de ouro que aparecem como constelações. Fale com o ateliê para fotos de perto e vídeo com luz natural.

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Obras disponíveis

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