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Pintoras que mudaram a arte no século 20

Hilma af Klint, Frida Kahlo, Georgia O'Keeffe, Tarsila do Amaral, Artemisia Gentileschi e Lee Krasner romperam, cada uma a seu modo, com uma história da arte contada quase só por homens — algumas pintando antes dos nomes que levaram o crédito, outras redescobertas décadas depois de mortas. Nenhuma delas precisa de comparação de estatura para justificar o lugar que ocupa.

Autorretrato com vestido laranja, óleo sobre tela de Tarsila do Amaral, 1921 — acervo do MASP
Tarsila do Amaral, Autorretrato com vestido laranja, 1921, óleo sobre tela, 50 x 41 cm — acervo do MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), obra em comodato do Banco Central, nº de acesso C.01273. Autorretrato com vestido laranja, Tarsila do Amaral (1886-1973). MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand. Fonte: masp.org.br.

O que aproxima estas seis pintoras

Esta não é uma lista definitiva nem um ranking — é uma seleção editorial de seis pintoras cujo trabalho forçou a história da arte a se reescrever, de formas diferentes e em séculos diferentes. Uma pintou composições abstratas cinco anos antes do nome que ficou conhecido como pioneiro da abstração. Outra foi por décadas reduzida à história do crime cometido contra ela, não à pintura que produziu. Outra recusou publicamente o rótulo que os críticos tentaram colar nela. O critério aqui não é popularidade nem preço de leilão: é ruptura documentada — uma mudança real e verificável em como a arte foi feita, vista ou contada depois delas.

Hilma af Klint — a pioneira que ninguém viu a tempo

A pintora sueca Hilma af Klint (1862-1944) criou sua primeira pintura inteiramente abstrata em 1906, em seu ateliê em Estocolmo — cinco anos antes de Wassily Kandinsky pintar sua primeira obra abstrata, em 1911, o nome que por décadas foi tratado como o pioneiro da abstração ocidental. Af Klint produziu quase 200 obras abstratas ao longo da vida, guiada por sessões espíritas e pela teosofia, mas nunca expôs esse conjunto publicamente: em testamento, deixou a coleção ao sobrinho com a instrução de que ficasse guardada por vinte anos após sua morte. A obra só ganhou reconhecimento amplo décadas depois — a mostra Hilma af Klint: Paintings for the Future, no Guggenheim de Nova York (2018-2019), reuniu mais de 600 mil visitantes e se tornou a exposição mais visitada nos então 60 anos de história do museu.

A página completa sobre a artista está em quem foi Hilma af Klint, incluindo a comparação direta com Wassily Kandinsky.

Frida Kahlo e Georgia O'Keeffe — duas formas de recusar rótulo

A mexicana Frida Kahlo (1907-1954) começou a pintar durante a recuperação de um grave acidente de ônibus na adolescência e construiu uma obra centrada no próprio corpo e na própria experiência, com uma franqueza pouco comum para a época. O crítico André Breton a classificou como surrealista, mas Kahlo rejeitava o rótulo — dizia não se identificar com o movimento. Sua obra ficou relativamente pouco conhecida fora do México até o fim da década de 1970, quando passou a ser lida como referência por movimentos feministas, chicanos e LGBTQ+.

A norte-americana Georgia O'Keeffe (1887-1986) seguiu o caminho inverso: em vez de recusar um rótulo, recusou copiar o que via. Formada no Art Institute of Chicago e na Art Students League de Nova York, ela deixou a pintura mais acadêmica depois de ser apresentada às ideias do professor Arthur Wesley Dow, e passou a desenhar abstrações a carvão como linguagem pessoal — um conjunto que chegou até o galerista Alfred Stieglitz, que a expôs pela primeira vez em 1916 e mais tarde se tornou seu marido. Em suas próprias palavras, sobre o método que definiu a carreira: "I had to create an equivalent for what I felt about what I was looking at – not copy it" ("eu tinha que criar um equivalente para o que sentia diante do que via — não copiar aquilo"). A partir de 1929 passou a viajar regularmente ao Novo México, onde se estabeleceria definitivamente em 1949 e viveria até morrer em Santa Fé, em 1986, aos 98 anos.

Tarsila do Amaral — o modernismo brasileiro em cor

Tarsila do Amaral (1886-1973) nasceu em Capivari, interior de São Paulo, e morreu na capital paulista. Estudou na Académie Julian, em Paris, entre 1920 e 1923, e ao voltar ao Brasil ajudou a fundar o Grupo dos Cinco, ao lado de Anita Malfatti, Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Menotti Del Picchia — núcleo que puxou o modernismo brasileiro para fora do academicismo europeu. Em 1928, pintou Abaporu — palavra de origem tupi-guarani que significa "homem que come" —, obra que inspirou o Manifesto Antropófago, escrito por Oswald de Andrade (então seu marido) naquele mesmo ano, e que deu origem ao Movimento Antropofágico: a proposta de que a arte brasileira devia "devorar" referências estrangeiras e devolvê-las transformadas, em vez de copiá-las.

A imagem desta página é um autorretrato de 1921, período anterior ao Abaporu, quando Tarsila ainda dividia sua formação entre o Brasil e a Europa — o instante em que a pintora que mudaria o modernismo brasileiro ainda estava se apresentando a si mesma pela pintura.

Por que foram menos reconhecidas — e o que mudou depois

Em 1971, a historiadora da arte Linda Nochlin publicou o ensaio "Why Have There Been No Great Women Artists?" ("Por que não houve grandes artistas mulheres?"), na revista ARTnews, argumentando que a resposta não está em falta de talento, mas em barreira institucional: mulheres foram sistematicamente excluídas do ensino formal de arte, impedidas de estudar o modelo vivo nu e barradas da pintura histórica — o gênero de maior prestígio nas academias da época. O ensaio virou referência para reler artistas que a história tinha deixado de lado.

A italiana Artemisia Gentileschi (1593-cerca de 1654) é o exemplo mais antigo dessa releitura: treinada desde criança no ateliê do pai, o pintor Orazio Gentileschi, tornou-se a primeira mulher admitida na Accademia delle Arti del Disegno de Florença e pintou obras hoje centrais no acervo de museus como os Uffizi (Judith Decapitando Holofernes). Ainda assim, por séculos sua reputação foi ofuscada pela história do estupro que sofreu em 1611 e do julgamento que se seguiu, não pela pintura que produziu — um desequilíbrio que só começou a ser corrigido pela historiografia feminista a partir dos anos 1970, com marco na biografia de Mary Garrard publicada em 1989.

Já a norte-americana Lee Krasner (1908-1984) viveu o ofuscamento em vida: casada com Jackson Pollock a partir de 1945, teve a própria carreira tratada como secundária à do marido enquanto ele viveu, apesar de já ser, desde os anos 1940, uma figura estabelecida entre os artistas abstratos da Escola de Nova York. A reavaliação crítica começou no fim dos anos 1960, e o MoMA organizou uma retrospectiva da artista poucos meses depois de sua morte, em 1984 — ela segue como uma das poucas mulheres a ter recebido uma retrospectiva individual no museu.

Do lado do mercado, o quadro está mudando, mas devagar: segundo o relatório The Art Basel and UBS Global Art Market Report 2026 (10ª edição, com dados de 2025), obras de artistas mulheres responderam por 37% do valor de vendas globais em 2025 — ante 28% em 2018 —, e por 45% da representação entre todos os marchands, ante 35% em 2018. A disparidade some quando o recorte muda: em galerias com faturamento acima de US$ 10 milhões, mulheres são só 35% dos artistas representados e 27% do valor vendido, contra 55% e 43%, respectivamente, em galerias com faturamento abaixo de US$ 250 mil.

O olhar do ateliê

O que herdo dessas pintoras quando trabalho a cor

Não me comparo a nenhuma dessas seis mulheres — Hilma af Klint escondeu a própria obra do mundo por convicção espiritual, Artemisia sobreviveu a um julgamento que eu nunca vou entender por dentro, Tarsila ajudou a reinventar a linguagem visual de um país inteiro. O que reconheço, como arquiteta que também pinta, é uma prática que se repete nelas de formas diferentes: deixar a cor carregar um sentido que a palavra ainda não alcançou. Em Solar Rain, construí um campo de amarelo contínuo — sol, alvorada, cítrico — e deixei a gravidade decidir onde o vermelho-cobre ia escorrer e se acumular. Não é o método de nenhuma delas; é o meu. Mas a pergunta que me guia enquanto pinto é parecida com a que atravessa a obra das seis: o que a cor consegue dizer que a explicação sozinha não consegue?

Perguntas frequentes

Quais pintoras são consideradas as mais importantes do século 20?

Não existe uma lista oficial única. Esta página reúne seis nomes recorrentes na revisão da história da arte feita ao longo do século 20 e depois dele: Hilma af Klint, Frida Kahlo, Georgia O'Keeffe, Tarsila do Amaral, Artemisia Gentileschi e Lee Krasner. A seleção segue um critério de ruptura documentada — uma mudança real na forma como a arte foi feita ou reconhecida —, não popularidade.

Por que mulheres artistas foram menos reconhecidas historicamente?

Segundo o ensaio de referência da historiadora Linda Nochlin, publicado em 1971 na revista ARTnews, a causa não foi falta de talento, mas barreira estrutural: mulheres eram historicamente excluídas do ensino formal de arte, impedidas de estudar o modelo vivo nu e barradas da pintura histórica, o gênero de maior prestígio nas academias. Isso limitava o acesso à formação e ao tipo de obra que os críticos da época valorizavam mais.

Existe pintora brasileira nessa lista?

Sim, Tarsila do Amaral (1886-1973). Ela pintou Abaporu em 1928, obra que inspirou o Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade e deu origem ao Movimento Antropofágico, um dos marcos do modernismo brasileiro.

Hilma af Klint e Tarsila do Amaral são contemporâneas?

Parcialmente. Af Klint nasceu em 1862 e morreu em 1944; Tarsila nasceu em 1886 e morreu em 1973 — as duas viveram entre o fim do século 19 e a primeira metade do século 20, com quase seis décadas de sobreposição. Mas trabalharam em contextos isolados uma da outra: af Klint manteve sua produção abstrata em segredo na Suécia, enquanto Tarsila construía o modernismo brasileiro em diálogo aberto com Paris e São Paulo. Não há registro de contato entre as duas.

O mercado de arte hoje valoriza mais obras de mulheres artistas?

Mais do que há alguns anos, mas ainda de forma desigual. Segundo o Art Basel and UBS Global Art Market Report 2026, obras de mulheres responderam por 37% do valor de vendas globais em 2025, ante 28% em 2018, e por 45% da representação entre marchands, ante 35% em 2018. A disparidade cresce no topo do mercado: em galerias com faturamento acima de US$ 10 milhões, mulheres são 35% dos artistas e 27% do valor vendido, contra 55% e 43% em galerias menores.

Fontes

  1. Wikipedia — 2026-08-02
  2. Tate Etc. (Tate) — 2026-08-02
  3. Wikipedia — 2026-08-02
  4. Georgia O'Keeffe Museum — 2026-08-02
  5. MASP — Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand — 2026-08-02
  6. Wikipedia — 2026-08-02
  7. Wikipedia — 2026-08-02
  8. Wikipedia — 2026-08-02
  9. Wikipedia — 2026-08-02
  10. Art Basel (Art Basel and UBS Global Art Market Report 2026, by Arts Economics) — 2026-08-02
  11. Perfeito Studio — fonte interna do acervo — 2026-08-02

Cor que carrega o que a palavra ainda não alcança

Solar Rain nasce do mesmo impulso que atravessa esta lista — deixar a cor dizer algo que a explicação sozinha não dá conta. Fale com o ateliê para fotos de perto e vídeo da obra com luz natural.

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Obras disponíveis

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