Journal · Exposições e museus

Quais museus de arte visitar em Roma

Roma espalha suas obras-primas por acervos muito diferentes entre si: os Museus Vaticanos (com a Capela Sistina e as Estâncias de Rafael), a Galleria Borghese, os Museus Capitolinos e a Galleria Doria Pamphilj formam o núcleo do roteiro — mas parte considerável das obras-primas da cidade está no acervo de igrejas, não de museus.

A Vocação de São Mateus, pintura de Caravaggio (1599-1600), no acervo da Capela Contarelli, em San Luigi dei Francesi, Roma
A Vocação de São Mateus (1599–1600), Caravaggio — a primeira grande encomenda pública do artista, no acervo da Capela Contarelli, em San Luigi dei Francesi. A Vocação de São Mateus, Caravaggio (1571–1610). San Luigi dei Francesi, Roma. Domínio público. Fonte: commons.wikimedia.org

O Vaticano e o que ele realmente é

Os Museus Vaticanos não são um museu único, mas um complexo de galerias que somam um dos acervos mais extensos do mundo — da arte egípcia e etrusca à pintura do século 19, passando pela escultura clássica da Galeria dos Candelabros e pela cartografia da Galeria dos Mapas. É fácil tratar o Vaticano como um corredor até a Sistina, mas o percurso que antecede a capela já concentra séculos de coleção papal, reunida por sucessivos pontífices desde o Renascimento.

A Capela Sistina é o destino final do percurso e o motivo mais citado para a visita: o teto pintado por Michelangelo entre 1508 e 1512 narra o Gênesis, do Criador separando a luz das trevas até a embriaguez de Noé, e a parede do altar recebeu, décadas depois, o Juízo Final do mesmo artista — duas encomendas separadas no tempo que hoje se leem como uma única obra.

As Estâncias de Rafael (Stanze di Raffaello) formam uma sequência de ambientes decorados por Rafael e sua oficina, encomendados pelo mesmo papa Júlio II que contratou Michelangelo para a Sistina — as duas encomendas correm em paralelo, na mesma década. É ali que está A Escola de Atenas, com Platão e Aristóteles no centro de uma arquitetura pintada que dialoga com a arquitetura real ao redor; quem atravessa rápido demais rumo à Sistina perde o contraponto direto ao teto de Michelangelo, concebido na mesma época, a poucos passos dali.

Borghese, Capitolinos e Doria Pamphilj — as coleções de palácio, e por que são a melhor experiência de pintura em Roma

Diferente do Vaticano, que cresceu por acumulação ao longo de séculos, a Galleria Borghese nasceu do gosto de uma só pessoa: o cardeal Scipione Borghese, que reuniu a coleção na própria villa, com jardim, no início do século 17. É lá que está Apollo e Dafne, de Bernini, mármore que congela o instante exato da metamorfose da ninfa em loureiro — e, no mesmo acervo, o Davi com a Cabeça de Golias, de Caravaggio, num contraste direto entre o movimento barroco de Bernini e o claro-escuro psicológico de Caravaggio.

Os Museus Capitolinos, na Colina Capitolina, formam a coleção cívica de Roma — distinta tanto do acervo papal do Vaticano quanto da coleção privada da Borghese. A escultura antiga domina, com a Loba Capitolina como peça mais conhecida, mas a Pinacoteca Capitolina reúne a pintura da coleção, incluindo A Cigana Adivinha, de Caravaggio — uma versão anterior à que está hoje no Louvre, pintada quando o artista ainda buscava reconhecimento em Roma.

A Galleria Doria Pamphilj é a coleção de uma família que ainda mora no próprio palácio — os herdeiros Doria Pamphilj seguem donos do acervo montado ao longo de gerações. A peça central é o Retrato do Papa Inocêncio X, de Velázquez, um dos retratos mais estudados da história da pintura pela crueza psicológica com que revela o papa; a coleção também tem O Descanso na Fuga para o Egito, de Caravaggio, numa chave mais intimista que os quadros religiosos de maior escala do mesmo artista.

O Palazzo Barberini, sede da Galleria Nazionale d'Arte Antica, soma mais duas obras de Caravaggio ao roteiro: Judite Decapitando Holofernes, um dos quadros mais violentos e mais estudados do artista, e o Narciso, do mesmo pintor. Também é onde está A Fornarina, de Rafael — retrato que a tradição identifica como a namorada do pintor, Margherita Luti, e que costuma dividir com o Caravaggio a atenção de quem visita o palácio.

A Villa Farnesina, construída para o banqueiro Agostino Chigi, guarda os afrescos mais celebrados de Rafael fora do Vaticano: o Triunfo de Galateia, com a ninfa marinha fugindo do ciclope Polifemo numa carruagem puxada por golfinhos, e a Loggia de Psiquê, pintada por Rafael e sua oficina sobre desenhos do próprio mestre. É um contraponto de escala às Estâncias — a mesma mão, num edifício muito menor e mais íntimo.

Para quem quer entender a escultura romana antiga além do que aparece nos Museus Vaticanos, o Museo Nazionale Romano se divide em quatro sedes — Palazzo Massimo, Palazzo Altemps, as Termas de Diocleciano e a Crypta Balbi. O Palazzo Altemps concentra a coleção Ludovisi, incluindo o Trono Ludovisi, relevo grego do século 5 a.C. que muitos interpretam como o nascimento de Afrodite — uma peça que raramente entra no roteiro de primeira viagem, mas que rivaliza em qualidade com qualquer escultura do Vaticano.

As obras que estão em igreja, e não em museu

Uma parte significativa das obras-primas de Roma nunca esteve num museu — está no acervo de igrejas que seguem em uso religioso, o que muda completamente o ritmo e a luz da visita, bem diferente do fluxo controlado de um museu. É o desvio que a maioria dos roteiros prontos esquece, e que recompensa quem sai da lista de museus por algumas horas.

Em San Luigi dei Francesi, a igreja da comunidade francesa em Roma, a Capela Contarelli guarda a primeira grande encomenda pública de Caravaggio: três telas que narram a vida de São Mateus — A Vocação de São Mateus, São Mateus e o Anjo e O Martírio de São Mateus, pintadas entre 1599 e 1600. É o mesmo Caravaggio que está na Galleria Borghese e no Palazzo Barberini, mas aqui a luz vem de uma janela real ao lado da capela, não de um sistema de iluminação de museu — o claro-escuro que o artista pintou dialoga com a luz que de fato entra no ambiente.

Em Santa Maria del Popolo, a Capela Cerasi tem outras duas telas de Caravaggio de frente uma para a outra: A Conversão de São Paulo e A Crucificação de São Pedro, ambas de 1601, encomendadas por Tiberio Cerasi para ladear o altar. Entre elas está a Assunção da Virgem, de Annibale Carracci — a comparação direta entre o dramatismo contido de Caravaggio e a composição mais clássica de Carracci é parte do motivo de a capela ser tão estudada.

Em San Pietro in Vincoli, o Moisés de Michelangelo é o que sobrou de um projeto que nunca se concretizou por inteiro: o papa Júlio II encomendou, em 1505, um túmulo monumental com quarenta estátuas, e depois da morte do papa o projeto foi reduzido sucessivas vezes até o resultado atual, contra uma parede, ao lado das figuras de Lia e Raquel. O Moisés — com os chifres de luz que a tradição iconográfica medieval atribuía à figura, e a musculatura tensa de quem acabou de descer do monte — é a peça que resume o que sobrou da ambição original.

Roma contemporânea — o que quase nenhum roteiro inclui

Quem organiza a visita a Roma em torno da Antiguidade, do Renascimento e do Barroco costuma deixar a cidade sem saber que ela também tem um dos museus de arquitetura mais premiados da Europa e uma das maiores coleções de arte moderna e contemporânea da Itália. Nenhum dos dois pede tanto tempo quanto o Vaticano, e os dois cabem numa mesma tarde para quem tem um dia de sobra no roteiro.

O MAXXI — Museu Nacional das Artes do Século XXI — foi projetado pela arquiteta Zaha Hadid num antigo quartel militar, e o edifício em si é a razão de muita gente ir: concreto fluido, rampas e passarelas que atravessam o vão em curvas contínuas, sem uma única linha reta a guiar o percurso. O prédio recebeu o Stirling Prize do instituto britânico de arquitetura em 2010, e o acervo — mais de trezentas obras de artistas como Gerhard Richter, Anish Kapoor e Alighiero Boetti — divide o espaço com uma coleção paralela dedicada à própria arquitetura contemporânea.

A Galleria Nazionale d'Arte Moderna (GNAM), fundada em 1883, reúne a maior coleção pública de arte moderna e contemporânea da Itália num só endereço — de esculturas neoclássicas a Cézanne, Klimt e Van Gogh. As Três Idades da Mulher, de Gustav Klimt, está no acervo, ao lado de telas de Van Gogh como O Jardineiro e o retrato de Madame Ginoux — presença rara de nomes desse peso fora do eixo Vaticano-Borghese que domina a imagem de Roma no exterior.

O olhar do ateliê

O que uma arquiteta vê em Roma além da pintura

Eu me formei em arquitetura antes de virar pintora, e em Roma essa formação para de ser um filtro e vira o próprio assunto: nenhuma das obras que mais me marcaram nessa cidade foi pensada para uma parede branca de galeria. A Escola de Atenas foi pintada para aquele espaço específico do Vaticano, na mesma proporção do arco que a emoldura, dialogando com a arquitetura real ao redor como se a pintura continuasse o prédio. O Moisés de Michelangelo foi esculpido para ser visto de baixo, contra a luz que entra de um ângulo específico em San Pietro in Vincoli — mudar esse ângulo muda a escultura. Nada disso acontece com uma tela numa parede neutra: a obra e o espaço foram desenhados juntos, na mesma encomenda.

O contraponto, para mim, é o MAXXI. Zaha Hadid não recebeu uma parede para preencher — ela desenhou o espaço inteiro em função do movimento de quem visita, sem hierarquia entre estrutura e conteúdo. É a mesma pergunta que eu me faço no ateliê, só que invertida: uma escultura barroca ou um afresco renascentista nasceram amarrados a um lugar; a arte contemporânea que vi no MAXXI nasceu livre do lugar e moldou o prédio à sua volta. As duas escolhas são válidas — mas só em Roma dá para ver as duas lado a lado, na mesma tarde.

Perguntas frequentes

Quais museus são obrigatórios numa primeira visita a Roma?

Os Museus Vaticanos — com a Capela Sistina e as Estâncias de Rafael — e a Galleria Borghese cobrem, juntos, o Renascimento e o Barroco na cidade; são a base de qualquer primeira viagem.

Quanto tempo reservar para o Vaticano?

O dia inteiro. O complexo é grande demais para ver com atenção em poucas horas, e chegar direto à Sistina sem passar pelas galerias anteriores — incluindo as Estâncias de Rafael — deixa de fora boa parte do acervo.

Quais obras-primas de Roma estão em igrejas, e não em museus?

As três telas de Caravaggio sobre São Mateus, em San Luigi dei Francesi; a Conversão de São Paulo e a Crucificação de São Pedro, do mesmo pintor, em Santa Maria del Popolo; e o Moisés de Michelangelo, em San Pietro in Vincoli.

Vale a pena incluir o MAXXI e a GNAM no roteiro?

Vale, principalmente para quem já viu o eixo Vaticano-Borghese-Capitolinos em outra viagem: os dois cobrem arquitetura e arte moderna/contemporânea que não aparecem em nenhum dos museus históricos, e cabem numa mesma tarde.

Qual a diferença entre a Galleria Borghese, os Museus Capitolinos e a Doria Pamphilj?

A Borghese é o gosto privado de um cardeal reunido numa villa; os Capitolinos são a coleção cívica de Roma, distinta do papado; a Doria Pamphilj é o acervo de uma família que ainda mora no próprio palácio. Três lógicas de coleção diferentes, todas de altíssimo nível.

Planejando o roteiro de museus em Roma?

Se alguma obra ou coleção virou referência para o seu olhar, fale com o ateliê sobre as peças do acervo Perfeito Studio.

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