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Quem foi Lygia Clark

Lygia Clark (1920–1988) foi uma artista brasileira, nascida Lygia Pimentel Lins em Belo Horizonte, que se tornou uma das figuras centrais do neoconcretismo carioca. É reconhecida internacionalmente como pioneira da arte participativa por meio dos Bichos, esculturas articuladas em alumínio que o espectador manipula com as próprias mãos.

Escultura Bicho, de Lygia Clark, 1960, chapas de alumínio articuladas por dobradiças — Associação Cultural Lygia Clark (acervo online)
Lygia Clark, Bicho, 1960, alumínio anodizado, técnica de recorte metálico, 40 x 43 x 43 cm — peça nº 61513 do acervo da Associação Cultural Lygia Clark. Bicho, Lygia Clark (1920–1988). Associação Cultural Lygia Clark, acervo nº 61513. Fonte: portal.lygiaclark.org.br.

De Belo Horizonte à formação em Paris

Lygia Clark nasceu Lygia Pimentel Lins em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 23 de outubro de 1920, e morreu no Rio de Janeiro em 25 de abril de 1988, vítima de um ataque cardíaco. Entre 1947 e 1949, já no Rio de Janeiro, estudou pintura com o paisagista e pintor Roberto Burle Marx e com a pintora e escultora Zélia Salgado. Em 1950 e 1951, viveu em Paris, onde treinou com Árpad Szenes, Isaac Dobrinsky e Fernand Léger — um período de formação europeia comum a boa parte da geração de artistas cariocas que, ao voltar ao Brasil, ajudaria a construir o movimento construtivo brasileiro.

Do Grupo Frente ao neoconcretismo: a ruptura de 1959

De volta ao Rio, Clark entrou em 1954 para o Grupo Frente, coletivo liderado por Ivan Serpa que reunia, entre outros, Lygia Pape e Hélio Oiticica, e que inicialmente se filiava aos ideais da arte concreta — abstração geométrica de base racional e sistemática. Em 1959, no entanto, Clark assinou, ao lado de Oiticica e de outros artistas do grupo carioca, o Manifesto Neoconcreto: um documento que rompia com o que consideravam o formalismo dogmático da arte concreta e defendia uma abordagem mais sensorial, cromática e emocional para a obra abstrata, em diálogo com a fenomenologia de Maurice Merleau-Ponty — a ideia de que o sentido de uma obra nasce da experiência vivida do corpo diante dela, não de uma fórmula geométrica fechada.

Os Bichos: a escultura que o espectador toca e transforma

É desse solo teórico que nascem os Bichos, série que Clark inicia em 1960 e que se estende até 1963: esculturas feitas de chapas de metal — alumínio polido ou anodizado, em formas geométricas e circulares — unidas por dobradiças. O espectador não observa um Bicho de longe: ele é convidado a tocar, dobrar e reconfigurar as chapas, alterando fisicamente as relações espaciais entre elas e criando, a cada manuseio, uma nova configuração tridimensional da peça. O sentido da obra passa a residir justamente nessa relação dinâmica entre objeto e quem o manuseia — não numa forma fixa que o artista determina sozinho.

Um exemplar de 1960 hoje catalogado no acervo da Associação Cultural Lygia Clark, sob o número 61513, ilustra bem essa lógica: oito triângulos equiláteros e dois círculos recortados ao longo dos diâmetros horizontal e vertical, articulados por dobradiças, formando uma estrutura que se abre e se fecha como uma flor de metal.

Do objeto de arte ao objeto relacional: os anos de terapia

A partir de 1960, Clark também passou a lecionar artes visuais no instituto nacional de educação de surdos do Brasil, uma frente pouco lembrada de seu trabalho com o corpo e a percepção sensorial fora do circuito expositivo tradicional. Entre 1970 e 1975, já radicada por temporadas na França, conduziu seminários na Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne sobre o que chamava de "corpo fantasmático". Em 1976, de volta ao Rio de Janeiro, voltou-se de forma cada vez mais central à prática psicoterapêutica, desenvolvendo o método que batizou de Estruturação do Self: sessões individuais em que objetos relacionais — criados por ela, aplicados sobre o corpo do paciente — eram usados como ferramenta de regressão e elaboração psíquica. É o ponto mais radical de uma trajetória que começou na pintura geométrica e terminou questionando onde, exatamente, termina a obra e começa o corpo de quem a experimenta.

O olhar do ateliê

O que os Bichos de Lygia Clark me lembram no ateliê

Não trabalho com dobradiça nem peço que ninguém manuseie a tela, mas entendo por dentro o impulso que levou Lygia Clark a tirar a obra da parede e colocá-la na mão de quem olha. Em Echo of Silence, construí a superfície em relevos concêntricos e dobras — a tela deixa de ser só imagem e vira também relevo, uma coisa que o olho quase toca antes da mão chegar perto. Quem vê a obra de perto, numa sala com boa luz lateral, enxerga a textura mudar com o ângulo do corpo: a pintura se comporta menos como quadro fixo e mais como superfície que responde a quem está diante dela.

É uma aproximação de espírito, não de método — não tenho a pretensão de repetir o gesto radical do neoconcretismo, que tirou a obra do plano e a devolveu ao corpo de forma literal. Mas a pergunta que fica de Lygia Clark é a que carrego para a mesa de trabalho: uma pintura pode ser sentida antes de ser vista? Foi essa pergunta, mais do que qualquer fórmula, que guiou cada camada raspada e reaplicada de Echo of Silence.

Perguntas frequentes

Lygia Clark fazia parte de que movimento artístico?

Lygia Clark foi uma das figuras centrais do neoconcretismo, movimento carioca que ela ajudou a fundar em 1959 ao assinar o Manifesto Neoconcreto ao lado de Hélio Oiticica e outros artistas do antigo Grupo Frente. Antes disso, desde 1954, já integrava o Grupo Frente, ligado à arte concreta de base geométrica — o neoconcretismo nasceu justamente como uma ruptura com o rigor formal desse grupo anterior.

O que são os 'Bichos' de Lygia Clark?

Bichos é o nome da série de esculturas articuladas que Clark produziu entre 1960 e 1963: chapas de metal — alumínio polido ou anodizado, em formas geométricas e circulares — unidas por dobradiças. O espectador é convidado a tocar e reconfigurar fisicamente as chapas, o que torna cada Bicho uma obra sem forma final fixa, dependente da manipulação de quem a experimenta.

Lygia Clark é considerada pintora, escultora ou as duas coisas?

As duas, e mais além. Clark começou como pintora formada sob Roberto Burle Marx e Zélia Salgado no Rio de Janeiro e, em Paris, sob Fernand Léger, Árpad Szenes e Isaac Dobrinsky. Ao longo da carreira, migrou da pintura geométrica para a escultura articulada dos Bichos e, depois, para work performativo, corporal e, já nos anos 1970-1980, para a prática terapêutica com objetos relacionais — uma trajetória que atravessa vários meios em vez de se fixar em um só.

Por que Lygia Clark é importante para a arte brasileira?

Porque foi uma das primeiras artistas a propor, de forma sistemática, que a obra de arte só se completa na experiência física de quem a manuseia — uma ideia radical para o final dos anos 1950, formulada junto com o neoconcretismo e a fenomenologia de Merleau-Ponty. Os Bichos são hoje referência internacional de arte participativa, e a trajetória posterior de Clark rumo à terapia influencia até hoje debates sobre os limites entre arte, corpo e cuidado.

Lygia Clark trabalhou com arte terapêutica também?

Sim. A partir de 1976, de volta ao Rio de Janeiro após período na França, Clark desenvolveu o método Estruturação do Self, no qual objetos relacionais criados por ela eram aplicados ao corpo do paciente em sessões individuais de caráter psicoterapêutico. Antes disso, entre 1970 e 1975, conduziu seminários na Sorbonne sobre o 'corpo fantasmático', e já em 1960 havia lecionado artes visuais no instituto nacional de educação de surdos do Brasil.

Uma superfície que se sente antes de se ver

Echo of Silence traz relevos escultóricos que respondem à luz e ao ângulo de quem olha — o mesmo tipo de experiência tátil que fascinava o neoconcretismo. Fale com o ateliê para fotos de perto da textura e vídeo com luz natural.

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