O que foi o neoconcretismo
O neoconcretismo foi um movimento de arte abstrata surgido no Rio de Janeiro em 1959, quando artistas como Lygia Clark, Ferreira Gullar, Lygia Pape e Franz Weissmann assinaram o Manifesto Neoconcreto, publicado no Jornal do Brasil. Eles rejeitavam o racionalismo rígido do concretismo paulista e defendiam a obra como um organismo vivo, aberto à experiência do espectador.
O manifesto de 1959 e a ruptura com o concretismo paulista
O neoconcretismo nasceu de uma dissidência dentro do próprio movimento concretista brasileiro. Em 1959, um grupo de artistas e poetas ligados ao Rio de Janeiro assinou o Manifesto Neoconcreto, publicado no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil por ocasião da 1ª Exposição de Arte Neoconcreta, inaugurada no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ). O documento reunia as assinaturas de Amílcar de Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanúdis, segundo o acervo oficial de Lygia Clark, que preserva o texto original do manifesto.
O texto criticava o que chamava de exacerbação racionalista da arte concreta — a corrente ligada a São Paulo, que tratava a obra geométrica quase como um problema de engenharia visual, resolvido por cálculo e repetição de módulo. Os neoconcretos discordavam dessa leitura puramente objetiva. Para eles, a forma geométrica não era um dado matemático fechado: era um veículo de expressão, carregado de significado existencial e afetivo — a mesma forma podia carregar tensão, silêncio ou movimento, dependendo de como o artista a tratava.
Lygia Clark, Hélio Oiticica e os artistas centrais do movimento
A maior parte dos nomes do neoconcretismo já se conhecia havia alguns anos, dentro do Grupo Frente — coletivo formado em 1954 em torno do MAM do Rio de Janeiro e do crítico Mário Pedrosa, que reunia, entre outros, Ivan Serpa, Lygia Clark, Lygia Pape e Hélio Oiticica. Lygia Clark (Belo Horizonte, 1920 – 1988) havia estudado com Roberto Burle Marx no Rio em 1947 e com Fernand Léger em Paris; ao voltar ao Brasil, tornou-se uma das vozes mais radicais do grupo neoconcreto, questionando os limites entre pintura, objeto e corpo do espectador.
Hélio Oiticica começou sua formação artística no próprio MAM Rio, em 1954, no curso livre de pintura de Ivan Serpa, e integrou o Grupo Frente entre 1955 e 1956. O MAM Rio o lista entre os signatários do Manifesto Neoconcreto de 1959 — um marco que o próprio museu associa à virada de sua trajetória, do plano bidimensional da pintura para experiências que passariam a envolver o espaço e a participação física do público nas décadas seguintes.
Hoje o MAM Rio mantém em seu acervo 23 obras de Lygia Clark — 21 da coleção do próprio museu e 2 da Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio —, incluindo peças da série Bichos.
Os Bichos e a ideia de obra como "quase-corpo"
O Manifesto Neoconcreto definia a obra de arte como um quase-corpo — não uma máquina ou um objeto inerte, mas algo próximo de um organismo vivo, que só se completa na relação com quem o observa ou manuseia. Nenhuma obra do período ilustra essa ideia de forma mais literal do que os Bichos, de Lygia Clark: esculturas articuladas, feitas de placas metálicas unidas por dobradiças, concebidas para serem tocadas e reconfiguradas por quem as observa — não apenas contempladas à distância.
Um exemplar de Bicho, escultura em alumínio de Lygia Clark produzida na década de 1960, com 21 × 82 × 90 cm, está hoje em comodato no acervo do MASP (Museu de Arte de São Paulo), registrado sob o número C.01229, cedido pela MASP B3 — Brasil, Bolsa, Balcão. A peça é um bom exemplo de como o neoconcretismo tratava a articulação física da obra como parte do próprio conteúdo: manusear o Bicho não é um gesto acessório, é a experiência estética que o manifesto reivindicava.
Neoconcretismo x concretismo: o que muda na prática
Concretismo e neoconcretismo compartilham o vocabulário geométrico e a recusa da figuração, mas divergem no que fazem com ele. O concretismo ligado a São Paulo tratava a forma como um problema resolvido por regras objetivas — cor, proporção e estrutura obedecendo a um sistema fechado, quase científico. O neoconcretismo carioca manteve o vocabulário geométrico, mas devolveu à forma a carga expressiva, o gesto e a experiência sensorial: a geometria deixa de ser um fim em si mesma e passa a ser um meio para provocar presença, tempo e afeto.
Na prática, essa diferença aparece na relação com quem observa. A obra concreta pede contemplação — o olho percorre uma composição fechada. A obra neoconcreta, sobretudo nos objetos de Lygia Clark e nas experiências de Hélio Oiticica, convida o corpo a agir: tocar, dobrar, entrar. É esse deslocamento — da retina para o corpo inteiro — que atravessa o trabalho dos dois artistas nesse período, e que segue sendo citado como o traço mais reconhecível do movimento.
O olhar do ateliê
O olhar do ateliê
Não vou fingir uma proximidade que não existe: a Alyne não é neoconcretista, e o Perfeito Studio nasceu décadas depois, em outro contexto. Mas ao reler o manifesto de 1959, uma ideia específica ecoa em algo que discutimos aqui o tempo todo — a de que a geometria só interessa quando carrega gesto, não quando vira fórmula. É basicamente o argumento por trás da série Matter & Silence: o relevo esculpido de Echo of Silence não busca precisão geométrica, busca ritmo — a mesma superfície lida de perto revela textura, de longe revela forma. Silent Interval, da mesma série, chega a um ponto parecido por outro caminho: não pelo relevo, mas pela contenção de um único gesto suspenso na tela.
É também aí que a formação da Alyne em arquitetura entra: ela pensa a tela como pensaria uma parede — peso, luz rasante, o jeito como a sombra muda ao longo do dia. Não é um paralelo com Lygia Clark, é uma pergunta parecida, feita décadas depois e em outro material.
Perguntas frequentes
Quem foram os principais artistas do neoconcretismo?
O núcleo do movimento veio do Grupo Frente, formado em 1954 no Rio de Janeiro. O Manifesto Neoconcreto de 1959 foi assinado por Amílcar de Castro, Ferreira Gullar, Franz Weissmann, Lygia Clark, Lygia Pape, Reynaldo Jardim e Theon Spanúdis, segundo o acervo oficial de Lygia Clark. O MAM Rio inclui também Hélio Oiticica entre os signatários. Lygia Clark e Hélio Oiticica se tornaram os nomes mais lembrados hoje, sobretudo pelos Bichos e pelas experiências participativas que vieram depois do movimento.
Neoconcretismo é o mesmo que concretismo?
Não. Os dois compartilham o vocabulário da arte geométrica abstrata, mas divergem na intenção. O concretismo ligado a São Paulo tratava a forma como um problema objetivo, quase científico. O neoconcretismo carioca, que nasceu como uma dissidência dele em 1959, devolveu à geometria a carga expressiva e afetiva, tratando a obra como um organismo vivo — o que o manifesto chamou de quase-corpo — em vez de um objeto ou máquina fechados em si mesmos.
O manifesto neoconcreto dizia o quê?
Publicado em 1959 no Jornal do Brasil, o Manifesto Neoconcreto criticava a exacerbação racionalista da arte concreta e defendia que a forma geométrica só tem sentido quando carrega significado existencial e afetivo. A obra de arte, para os signatários, não é uma máquina nem um objeto inerte — é um quase-corpo, algo que só se completa na relação com quem observa ou manuseia. É essa ideia que explica esculturas manipuláveis como os Bichos, de Lygia Clark.
Onde ver obras neoconcretas no Brasil hoje?
O Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ) mantém em seu acervo 23 obras de Lygia Clark — 21 da coleção do próprio museu e 2 da Coleção Gilberto Chateaubriand MAM Rio —, incluindo peças da série Bichos. O MASP também guarda um exemplar de Bicho, em comodato, no seu acervo de escultura. Fora desses dois acervos, boa parte da produção neoconcreta está em coleções particulares ou circula em mostras temporárias — vale conferir a programação de cada museu antes de visitar.
O neoconcretismo influencia artistas brasileiros contemporâneos?
Sim, de forma indireta e ampla. A atenção à materialidade da superfície, ao corpo de quem observa e à experiência sensorial da obra — em vez da geometria pura como fim — segue sendo um repertório revisitado por gerações de artistas brasileiros que trabalham entre abstração e objeto. No Perfeito Studio, essa conversa aparece menos como citação histórica e mais como uma pergunta parecida, feita com outros materiais: o que a superfície faz quando é tocada, não só olhada.
Fontes
- Associação Cultural Lygia Clark — Portal Lygia Clark — 2026-08-02
- Associação Cultural Lygia Clark — Portal Lygia Clark — 2026-08-02
- Associação Cultural Lygia Clark — Portal Lygia Clark — 2026-08-02
- MAM Rio — Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro — 2026-08-02
- MAM Rio — Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro — 2026-08-02
- MASP — Museu de Arte de São Paulo — 2026-08-02
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