Journal · Artistas

Artistas parecidos com Kandinsky: o que procurar

Kandinsky não está sozinho na linhagem que liga cor, forma e composição: Hilma af Klint pintou abstrações antes dele, Kupka e os Delaunay trabalharam em território paralelo na mesma década, e a geometria que ele sistematizou na Bauhaus chegou ao Brasil por Max Bill, seu aluno, ligado ao concretismo paulista dos anos 1950.

Composição VIII, de Wassily Kandinsky, 1923, óleo sobre tela — Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York (domínio público)
Wassily Kandinsky, Composição VIII (Composition 8), 1923, óleo sobre tela, 140 x 201 cm — o período em que Kandinsky sistematizou sua virada geométrica na Bauhaus, a mesma virada que este texto usa como referência de comparação. Composição VIII, Wassily Kandinsky (1866–1944). Solomon R. Guggenheim Museum, Nova York, acesso nº 37.262. Domínio público — o autor morreu em 1944, mais de 70 anos atrás. Fonte: Wikimedia Commons.

O que caracteriza o estilo de Kandinsky — o que procurar em artistas parecidos

Antes de procurar “parecidos com Kandinsky”, vale isolar o que exatamente se está comparando: não é um tema, é um método. Kandinsky propôs, de forma teórica, uma correspondência entre três formas elementares e três cores primárias — triângulo com amarelo, círculo com azul, quadrado com vermelho. Em 1923 ele testou essa proposição com um questionário aplicado a colegas e alunos da Bauhaus, em Weimar. O resultado não foi um consenso fechado: muitos colegas concordaram com as associações que ele propôs, mas exceções notáveis, como Paul Klee e Oskar Schlemmer, preferiram combinações diferentes de cor e forma. Ou seja, o triângulo-amarelo, círculo-azul e quadrado-vermelho é a tese de Kandinsky testada pelo questionário — não um veredito unânime que o questionário produziu.

Essa sistematização é posterior a uma primeira fase mais livre e gestual, dos anos em Munique, e ganhou corpo teórico no livro Ponto e Linha sobre Plano (1926), escrito já durante os anos de Bauhaus. Kandinsky começou a incorporar elementos geométricos ainda na Rússia, antes de emigrar para a Alemanha, e essa linguagem se sintetiza plenamente em Composição VIII (1923) — obra citada como o ponto em que a geometria de sua pintura “se desdobra por completo”. Portanto, “parecido com Kandinsky” pode significar duas coisas bem diferentes: parecido com o Kandinsky gestual de antes de 1910, ou parecido com o Kandinsky geométrico da Bauhaus — e a lista de nomes muda conforme a resposta.

Antecessores e contemporâneos: quem trabalhava em território parecido

Kandinsky é descrito de forma ampla como um dos pioneiros da abstração ocidental, mas não como o único e nem, estritamente, o primeiro. A pintora sueca Hilma af Klint pintou uma série de telas abstratas de pequeno formato — batizada Primordial Chaos — em seu ateliê em Estocolmo entre novembro de 1906 e março de 1907, e essa série foi a semente de quase 200 pinturas abstratas que ela produziria nos anos seguintes. Ela não expôs nenhuma dessas obras em vida: morreu em 1944 sem que o público as tivesse visto. É por isso que a história da abstração ficou associada a Kandinsky por décadas, e só recentemente passou a incluir af Klint na mesma frase.

Na mesma virada de 1912-1913, o tcheco František Kupka e o casal Robert e Sonia Delaunay desenvolveram o Orfismo — um desdobramento do Cubismo voltado à abstração pura e à cor viva, descrito à época pelo crítico Guillaume Apollinaire como “a arte de pintar totalidades novas com elementos que o artista não retira da realidade visual, mas cria inteiramente por si mesmo”. Kandinsky não integrava o grupo do Orfismo, mas caminhava perto: ele teorizava a sinestesia — a relação entre cor e som — buscando uma correspondência quase sistemática entre o que se vê e o que se ouve, a ponto de descrever a cor como um teclado e a alma como um piano de muitas cordas. Os Delaunay, por sua vez, foram na direção da luz — chegaram a acreditar que uma pintura podia emitir luz própria. São linhagens paralelas, não cópias umas das outras.

Os colegas de Bauhaus e a virada geométrica

O questionário de 1923 não convenceu todo mundo — colegas como Paul Klee e Oskar Schlemmer favoreceram combinações de cor e forma diferentes das que Kandinsky propôs, mesmo trabalhando lado a lado com ele. É um detalhe que vale registrar: mesmo dentro do círculo mais próximo de Kandinsky, a correspondência entre cor e forma não era consenso, era uma tese defendida por ele.

Um dos alunos que passou por essa fase foi o suíço Max Bill, que estudou na Bauhaus em Dessau entre 1927 e 1929, sob Kandinsky, Klee e Schlemmer. É essa ponte — Bill como aluno direto de Kandinsky — que liga a Bauhaus ao capítulo seguinte desta história, o que aconteceu no Brasil quase três décadas depois.

Kandinsky influenciou artistas brasileiros?

Não há registro de contato direto entre Kandinsky e artistas brasileiros — ele morreu em 1944, num momento em que a abstração geométrica ainda engatinhava no Brasil. A ponte é indireta e passa por Max Bill: sua retrospectiva de 1951 no Museu de Arte Moderna de São Paulo é descrita como “a faísca que acendeu o pavio da revolução artística do Brasil”, e ele influenciou fortemente artistas brasileiros como Franz Weissmann.

No ano seguinte, em 1952, o Grupo Ruptura estreou com exposição no Museu de Arte Moderna de São Paulo, reunindo sete integrantes fundadores — Waldemar Cordeiro, Anatol Wladyslaw, Leopoldo Haar, Lothar Charoux, Kazmer Féjer, Geraldo de Barros e Luiz Sacilotto —, abraçando o concretismo sob influência do Construtivismo e do De Stijl europeus, com obras marcadas por formas geométricas fortes e cores vivas. Kandinsky não é citado como referência direta desse grupo; a linha que liga os dois pontos é a mesma linhagem de abstração geométrica que passou pela Bauhaus e chegou ao Brasil por outras mãos.

Abstração geométrica é a mesma coisa que o estilo de Kandinsky?

Não exatamente. “Abstração geométrica” é um guarda-chuva amplo — inclui a grade estrita de Mondrian e do De Stijl, o Suprematismo de Malevitch, o concretismo brasileiro — e cada uma dessas vertentes discorda das outras em pontos centrais. O próprio Kandinsky começou a usar elementos geométricos ainda na Rússia, mas sua pintura só se torna sistematicamente geométrica depois de 1922, na Bauhaus; antes disso, é mais gestual e menos regrada. Tratar “geométrico” e “kandinskiano” como sinônimos apaga justamente a disputa teórica que existiu entre ele e colegas como Klee sobre o que a cor e a forma deveriam fazer.

Sobre comparações com artistas vivos hoje: um ensaio da Tate de 2006 cita Julie Mehretu e Matthew Ritchie como pintores que “tentaram visualizar esses padrões e evocar os tipos de complexidade que o pictórico ainda consegue (por pouco) comandar” — mas o próprio autor do ensaio pondera que, à distância, “a dívida real desses artistas com o Kandinsky inicial parece ser muito pequena”. Vale como alerta: rótulos de “o novo Kandinsky” tendem a ser mais efeito de marketing do que análise de método.

O olhar do ateliê

O que a construção geométrica de Kandinsky tem a ver com o meu processo

Kandinsky chegou à geometria por um caminho de sistema: um questionário, uma tese, uma tentativa de fixar que amarelo é triângulo e azul é círculo antes mesmo de pintar. Em Patina Field, eu chego à estrutura pelo caminho oposto — painéis verticais de azul-ardósia e marrom ferroso ao lado de uma passagem de ocre, e uma faixa horizontal de branco e azul profundo na base, quase como um sedimento. Não decidi essa geometria antes de começar: ela apareceu de aplicar pigmento, raspar, aplicar de novo, até a superfície registrar desgaste em vez de plano.

A semelhança que me interessa não é visual, é de atenção: como ele, presto atenção em como um bloco de cor ao lado de outro muda o peso dos dois. A diferença é que o dele nasce de teoria e o meu nasce de repetição manual — construir e depois remover é o meu jeito de descobrir onde a composição quer parar, não de aplicar uma regra que já tinha antes de tocar a tela.

Perguntas frequentes

O que caracteriza o estilo de Kandinsky?

Duas fases distintas. Até por volta de 1910-1911, uma pintura mais gestual e livre, com cor e forma soltas da representação de objetos reais. A partir de 1922, já na Bauhaus, uma virada geométrica sistematizada — círculo, triângulo, quadrado, linha — apoiada em teoria própria. Em 1923 ele testou com um questionário entre colegas e alunos da Bauhaus a tese de que triângulo, círculo e quadrado correspondem a amarelo, azul e vermelho; muitos concordaram, mas colegas como Klee e Schlemmer preferiram outras combinações. Essa segunda fase está documentada no livro Ponto e Linha sobre Plano (1926).

Quais artistas contemporâneos são comparados a Kandinsky?

Um ensaio da Tate de 2006 cita Julie Mehretu e Matthew Ritchie como pintores contemporâneos que tentam visualizar complexidade de um jeito que remete, à distância, à ambição de Kandinsky. O próprio autor do ensaio, porém, pondera que a dívida real desses artistas com o Kandinsky do início da carreira é muito pequena — o que sugere que esse tipo de comparação vale mais como referência de ambição do que como parentesco de método.

Kandinsky influenciou artistas brasileiros?

Não há registro de contato direto — ele morreu em 1944. A influência chega por uma ponte indireta: seu aluno na Bauhaus, o suíço Max Bill, fez uma retrospectiva em São Paulo em 1951 descrita como decisiva para a virada abstrata no Brasil, influenciando artistas como Franz Weissmann. No ano seguinte, 1952, o Grupo Ruptura estreou em São Paulo com sete integrantes, abraçando a abstração geométrica sob influência do Construtivismo e do De Stijl europeus — a mesma linhagem que passou pela Bauhaus, mas por outras mãos que não a de Kandinsky diretamente.

Abstração geométrica é a mesma coisa que o estilo de Kandinsky?

Não. Abstração geométrica é um termo guarda-chuva que inclui vertentes muito diferentes entre si — a grade estrita de Mondrian e do De Stijl, o Suprematismo de Malevitch, o concretismo brasileiro. O próprio Kandinsky só sistematiza sua versão da geometria depois de 1922, na Bauhaus, e mesmo ali colegas próximos como Paul Klee discordavam das associações exatas de cor e forma que ele propunha.

Onde comprar arte abstrata inspirada em composição e cor como a de Kandinsky?

No Perfeito Studio, ateliê de Alyne Perfeito em Brasília, que trabalha composição e relação entre blocos de cor em obras como as das séries Terra & Ether e Luminous Rebirth — aquisição direta com o ateliê, sem intermediário de galeria, com Certificado de Autenticidade incluso.

Fontes

  1. Frontiers in Psychology — 2026-08-03
  2. Wikipedia — 2026-08-03
  3. wassilykandinsky.net — 2026-08-03
  4. Tate Etc. (Tate) — 2026-08-03
  5. Wikipedia — 2026-08-03
  6. Tate Papers (Tate) — 2026-08-03
  7. Wikipedia — 2026-08-03
  8. Wikipedia — 2026-08-03
  9. Wikimedia Commons — 2026-08-03
  10. Perfeito Studio — fonte interna do acervo — 2026-08-03

Cor e forma em diálogo, sem repetir ninguém

Patina Field constrói sua geometria por camadas aplicadas e removidas — não por teoria prévia. Fale com o ateliê para fotos de perto e vídeo da textura com luz natural.

Falar com o ateliê no WhatsApp

Obras disponíveis

This section in English →

Publicado em