O que faz um arquiteto paisagista (e como isso difere de jardinagem)
Arquiteto paisagista é o profissional que projeta o espaço externo como um todo — topografia, circulação, vegetação, água e iluminação — a partir de formação superior em arquitetura, agronomia ou área correlata com especialização em paisagismo. Jardinagem cuida das plantas já plantadas; arquitetura paisagística decide o que vai onde, por quê, e como o espaço muda ao longo dos anos.
O que diferencia arquitetura paisagística de jardinagem
Arquitetura paisagística é um projeto: decide o desenho do terreno antes de qualquer planta ir para o chão — como a água escoa, por onde as pessoas circulam, o que fica visível de cada ponto, quais espécies convivem entre si ao longo dos anos, o que é piso duro e o que é área verde. É trabalho de concepção, tomado antes da execução, e normalmente registrado em plantas, cortes e memoriais técnicos, do mesmo jeito que um projeto de arquitetura de edificação.
Jardinagem é outra etapa, posterior: cuidar do que já foi plantado — podar, adubar, controlar praga, replantar o que morreu, manter a grama cortada. Um jardim pode ter um ótimo jardineiro e nunca ter tido um projeto por trás; e um projeto de paisagismo bem desenhado só se sustenta no tempo se alguém cuidar dele depois. As duas atividades se completam, mas não são a mesma profissão nem pedem a mesma formação.
Os caminhos de formação — nem sempre pela arquitetura
No Brasil não existe um único caminho obrigatório até a arquitetura paisagística, e as trajetórias de referência da área mostram isso. Rosa Kliass chegou ao paisagismo ainda estudante de Arquitetura e Urbanismo na FAU-USP, nos anos 1950, quando uma disciplina de Desenho de Paisagem foi introduzida no último ano do curso, ministrada pelo professor Roberto Coelho Cardoso — um americano de origem portuguesa vindo de Berkeley.
Benedito Abbud também é arquiteto formado pela FAU-USP, onde fez pós-graduação e mestrado, e passou a lecionar a disciplina: desenho de paisagem na própria FAU-USP entre 1980 e 1985, depois de já ter lecionado na PUC-Campinas entre 1977 e 1981. É o caminho mais convencional hoje — graduação em Arquitetura e Urbanismo seguida de especialização em paisagismo.
Já Rodrigo Oliveira chegou por outra porta: formou-se em Agronomia pela Universidade Federal de Viçosa (UFV) em 1993 e, anos depois, estudou arboricultura na Flórida por um ano antes de abrir escritório próprio, em 2005. As três trajetórias — arquitetura desde o início, arquitetura com especialização, e agronomia com formação técnica complementar — convivem na profissão até hoje.
Da escala da casa à escala da cidade
O mesmo título profissional cobre projetos de tamanhos muito diferentes. Do escritório de Benedito Abbud já saíram mais de 6.000 projetos de arquitetura paisagística, de residências, condomínios e bairros a cidades inteiras, no Brasil e em outros três países — um volume que só faz sentido porque o mesmo raciocínio de projeto (topografia, circulação, vegetação, água) se aplica tanto a um quintal quanto a um plano urbano.
Rosa Kliass é referência do outro extremo da escala: assinou a reforma da Avenida Paulista em 1973, a revitalização do Vale do Anhangabaú em 1981 e o Parque da Juventude, aberto em 2003 e concluído em 2007, premiado na Bienal de Arquitetura de Quito em 2004. São projetos de espaço público, pensados para milhares de pessoas por dia — a mesma disciplina que decide onde plantar uma árvore num jardim residencial decide onde abrir um caminho num parque.
Quem organiza a profissão — a ABAP no Brasil, o ASLA nos Estados Unidos
A Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP) foi fundada em 28 de maio de 1976, a partir de um convite feito na conferência da International Federation of Landscape Architects (IFLA) realizada em San Antonio, no Texas, no ano anterior. Rosa Kliass reuniu um grupo de profissionais em São Paulo para fundar a associação e foi sua primeira presidente, entre 1976 e 1980; Benedito Abbud viria a presidir a entidade depois, em dois mandatos, 1987-1988 e 1999-2000.
Nos Estados Unidos, a entidade equivalente é a American Society of Landscape Architects (ASLA), fundada em 1899 e hoje com quase 16 mil associados. A existência de associações de classe organizadas — com histórico de décadas, prêmios e presidências documentadas — é um bom sinal de que se trata de uma profissão regulada e não de um serviço informal.
O olhar do ateliê
O olhar do ateliê: o que uma arquiteta vê quando lê um espaço
Não sou arquiteta paisagista, nem pretendo me colocar ao lado de quem construiu essa profissão no Brasil. Mas a formação em arquitetura muda como eu penso onde uma obra vai ficar — não só qual parede, mas o que existe do outro lado dela: se há luz entrando de um jardim, se a pessoa vê a tela primeiro de longe, atravessando um ambiente, ou só de perto, já dentro do cômodo. É o mesmo tipo de pergunta que orienta um projeto de paisagismo, só que aplicada a um objeto e não a um terreno.
Vegetal Dawn nasceu dessa lógica, mesmo sem ser sobre paisagismo nenhum: camadas de verde que se organizam como uma copa vista de baixo, com a folha de ouro entrando como luz filtrada, não como ornamento. Quando um colecionador me pergunta se ela funciona perto de uma área com plantas, minha resposta parte do mesmo raciocínio que um projeto de paisagem usa — não é sobre a obra isolada, é sobre o que ela conversa com o que já está no espaço.
Perguntas frequentes
Arquiteto paisagista precisa ter diploma de arquitetura?
No Brasil, o caminho mais comum hoje é graduação em Arquitetura e Urbanismo com especialização em paisagismo — foi o caso de Benedito Abbud, formado, pós-graduado e mestre pela FAU-USP. Mas não é o único: Rosa Kliass também veio da arquitetura, por uma disciplina específica de Desenho de Paisagem cursada ainda na graduação, enquanto Rodrigo Oliveira chegou pela agronomia, com formação técnica complementar em arboricultura. A regulamentação da atividade no Brasil reconhece mais de uma porta de entrada.
Qual a diferença entre arquiteto paisagista e jardineiro?
O arquiteto paisagista projeta: decide o desenho do espaço externo antes de qualquer planta ir para o chão, considerando topografia, circulação, drenagem e como a vegetação vai se comportar ao longo dos anos. O jardineiro executa e mantém o que já foi plantado — poda, adubação, controle de praga, replantio. São etapas complementares e raramente a mesma pessoa faz as duas: um projeto bem desenhado ainda depende de manutenção depois, e um jardim bem cuidado pode nunca ter tido um projeto por trás.
Arquiteto paisagista só trabalha com jardim residencial?
Não. A mesma formação cobra desde um quintal até um parque público inteiro. O escritório de Benedito Abbud já produziu mais de 6.000 projetos, de residências e condomínios a cidades inteiras, no Brasil e em outros três países. Rosa Kliass é referência na outra ponta da escala, com projetos de espaço público como a Avenida Paulista, o Vale do Anhangabaú e o Parque da Juventude, em São Paulo.
Existe associação de classe para arquitetos paisagistas no Brasil?
Sim, a Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP), fundada em 28 de maio de 1976 por Rosa Kliass e um grupo de profissionais reunidos em São Paulo, a partir de um convite feito na conferência da International Federation of Landscape Architects (IFLA), no ano anterior, em San Antonio, Texas. Kliass foi a primeira presidente da entidade, entre 1976 e 1980.
O ASLA americano é o mesmo tipo de entidade que a ABAP brasileira?
Cumprem papel equivalente em países diferentes: a American Society of Landscape Architects (ASLA), fundada em 1899 nos Estados Unidos, é hoje a maior associação do tipo no mundo, com quase 16 mil associados. A ABAP é a entidade de referência da categoria no Brasil, fundada quase oito décadas depois, em 1976. Nenhuma das duas substitui a outra — cada uma organiza a profissão no seu próprio país.
Arquiteto paisagista e arquiteto de edificações são a mesma formação?
Podem começar pela mesma graduação — Arquitetura e Urbanismo —, mas depois seguem caminhos diferentes de especialização: um projeta edifícios e interiores construídos, o outro projeta o espaço externo, a vegetação e a relação entre construção e terreno. Também não é a única porta: a trajetória de Rodrigo Oliveira mostra que formação em agronomia, com especialização técnica complementar, é outro caminho reconhecido até essa mesma profissão.
Projetando um espaço externo integrado à casa e pensando em arte para o ambiente?
O Perfeito Studio atende arquitetos e designers de interiores com curadoria de obras para o projeto — incluindo espaços com luz natural e proximidade de vegetação. Vegetal Dawn (80 × 120 cm), da série Terra & Ether, é uma das obras dessa conversa.
Fontes
- IFLA World (International Federation of Landscape Architects) — 2026-09-24
- Prefeitura de São Paulo — Escola Municipal de Jardinagem — 2026-09-24
- CAU/BR — Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil — 2026-09-24
- Wallpaper* — 2026-09-24
- ABAP — Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas — 2026-09-24
- ASLA — American Society of Landscape Architects — 2026-09-24
Publicado em