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Quais obras ver no Rijksmuseum

A visita ao Rijksmuseum se resolve em poucos nomes: A Ronda Noturna, de Rembrandt, no fim da Galeria de Honra; A Leiteira e mais três telas de Vermeer no mesmo corredor; e o retrato de casamento de Frans Hals, ao lado das naturezas-mortas e paisagens que fecham o Século de Ouro holandês.

A Ronda Noturna, pintura de Rembrandt de 1642, no acervo do Rijksmuseum, em Amsterdã
A Ronda Noturna (1642), Rembrandt — acervo do Rijksmuseum, Amsterdã. A Ronda Noturna, Rembrandt van Rijn (1606–1669). Rijksmuseum, Amsterdã. Domínio público. Fonte: commons.wikimedia.org

"A Ronda Noturna" — o que realmente acontece nela

O nome popular engana: A Ronda Noturna (1642), de Rembrandt — título oficial Milícia da Companhia do Distrito II sob o comando do Capitão Frans Banninck Cocq — não retrata uma cena noturna. É um grupo de milicianos em plena luz do dia, escurecido ao longo dos séculos por camadas de verniz oxidado que se acumularam sobre a tinta; só a restauração do século 20, ao remover esse verniz, devolveu a cena solar original de Rembrandt. Mesmo assim, o apelido ficou.

O problema que a tela resolve é de composição, não de luz: retrato de grupo de milícia era, até então, um gênero estático — fileiras de homens postos lado a lado, todos igualmente visíveis, porque cada miliciano pagava para aparecer no quadro. Rembrandt rompe essa convenção e organiza a cena como ação em movimento: o capitão de preto dá a ordem de marcha ao tenente, um tambor bate, um cão late, e uma menina de vestido dourado — figura que não pertence à milícia — atravessa o meio da composição banhada por uma luz que não incide em mais ninguém. A tela está no acervo do Rijksmuseum e ocupa o ponto mais alto da Galeria de Honra, o corredor que a reforma do prédio, concluída em 2013, foi desenhada para conduzir até ali.

Vermeer e a economia de uma cena pequena

O Rijksmuseum guarda quatro telas de Vermeer — A Leiteira (c. 1658–1659), A Rua (vista de casas em Delft, c. 1658), Mulher Lendo uma Carta (c. 1663) e A Carta de Amor — todas na mesma ala da Galeria de Honra, a poucos metros umas das outras. Nenhuma é grande, nenhuma tem mais de duas figuras, e é exatamente essa economia que sustenta o interesse: Vermeer resolve luz, espaço e silêncio numa única janela, uma única mesa, uma única mulher concentrada num gesto doméstico.

Em A Leiteira, vale se aproximar da textura granulada com que Vermeer pinta a luz batendo na casca do pão — pontos espessos de tinta clara que imitam o brilho da crosta, técnica que os estudiosos chamam de pointillé e que antecede em dois séculos qualquer associação da palavra com o impressionismo francês. Em A Rua, o assunto é o oposto do espetáculo: uma fachada comum de tijolo em Delft, pintada com uma precisão quase arquitetônica em cada junta e cada rachadura no reboco. É comum o visitante confundir essa Vermeer com outras duas obras muito citadas do pintor — Moça com Brinco de Pérola e Vista de Delft — que não estão aqui: as duas pertencem ao acervo do Mauritshuis, em Haia, a menos de uma hora de trem.

O Século de Ouro holandês — retrato, natureza-morta, paisagem e o que isso diz sobre uma sociedade que comprava pintura

O século 17 holandês foi uma exceção rara na Europa: uma república mercantil e protestante, sem uma corte católica nem uma Igreja a encomendar pintura religiosa em escala. Quem comprava telas era uma classe ampla de comerciantes, guildas e famílias urbanas — e isso explica por que o acervo do Rijksmuseum é dominado por retrato de grupo, cena doméstica e natureza-morta, em vez de temas sacros. Retrato de um Casal, provavelmente Isaac Massa e Beatrix van der Laen (1622), de Frans Hals, é um exemplo direto: um casal recém-casado retratado em tamanho natural, lado a lado, de forma íntima e bem-humorada — pose rara para a época —, com hera aos pés dela como símbolo de amor eterno e uma estátua de Juno ao fundo, deusa do casamento. Do mesmo pintor, O Bebedor Alegre mostra a pincelada solta e cruzada que ficou conhecida como o estilo "rústico" de Hals.

Rembrandt sozinho ocupa 22 telas do acervo, do autorretrato de juventude ao tardio Autorretrato como Apóstolo Paulo (1661), e inclui A Noiva Judia, tela em que aplica a tinta tão espessa que chega a raspar a superfície com o cabo do pincel para abrir sulcos na camada — um dos usos mais físicos de tinta em toda a pintura holandesa do período. E a Natureza-morta com Queijos (c. 1615), de Floris van Dijck, resume o que a riqueza mercantil comprava: queijo, fruta importada e toalha de damasco caro, dispostos com uma ilusão de realidade tão precisa que o prato de estanho parece se projetar para fora da mesa.

O que quase todo mundo perde no acervo

O padrão de visita mais comum é entrar, atravessar a Galeria de Honra correndo até A Ronda Noturna, tirar a foto e sair. Isso deixa de fora as duas telas de Frans Hals, que costumam ficar em salas vizinhas menos percorridas, e a discreta Natureza-morta com Queijos, fácil de passar direto porque não tem o espetáculo de um retrato de grupo — mas é uma das naturezas-mortas mais estudadas do gênero justamente pela ilusão de profundidade que cria numa superfície plana.

Outro engano comum é achar que toda obra de Van Gogh em Amsterdã está no Van Gogh Museum, a poucos quarteirões dali. O Rijksmuseum guarda seu próprio Autorretrato de Van Gogh (1887), pintado sobre papelão, numa tela pequena que costuma passar despercebida por quem já viu o nome do artista na fachada do outro museu e segue direto para lá. E o próprio edifício — projetado no século 19 por Pierre Cuypers e reformado por dez anos pelo escritório espanhol Cruz y Ortiz, com conclusão em 2013 — é ele mesmo parte do acervo: o átrio de vidro rebaixado abaixo do nível da rua devolveu luz natural ao percurso sem alterar a arquitetura original, e quase nenhum visitante para para reparar nisso.

O olhar do ateliê

O que eu olho no Rijksmuseum, como pintora que documenta a própria conservação

Eu nunca estive no Rijksmuseum pessoalmente, mas a história d'A Ronda Noturna é exatamente o tipo de problema que atravessa meu trabalho todos os dias. Um verniz que escurece com o tempo e muda a leitura de uma pintura por séculos — a ponto de trocar dia por noite no imaginário coletivo — não é curiosidade histórica para mim: é o motivo pelo qual eu registro cada camada de verniz e cada etapa de secagem das minhas próprias telas, com data e material, antes de entregar uma obra ao colecionador. Verniz não é acabamento neutro; é uma decisão que a tela carrega para sempre, e que só se revela — para o bem ou para o mal — anos depois.

Há uma segunda coisa que me interessa nessa história: a obra que todo mundo vê hoje não é a que Rembrandt entregou, é uma versão restaurada, uma leitura corrigida depois de gerações de verniz escurecido. Isso me faz pensar na minha própria responsabilidade como quem pinta agora — a superfície que eu resolvo hoje, com empasto aqui e véu ali, é o que vai chegar ao colecionador daqui a décadas, sem verniz de terceiros para reescrever a decisão. Por isso documento a conservação das minhas obras desde a primeira camada, não só no dia da entrega.

Perguntas frequentes

Quais são as obras mais importantes do Rijksmuseum?

<p>As mais citadas são <strong>A Ronda Noturna</strong>, de Rembrandt, e as quatro telas de Vermeer no acervo — <strong>A Leiteira</strong>, <strong>A Rua</strong>, <strong>Mulher Lendo uma Carta</strong> e <strong>A Carta de Amor</strong> —, além dos retratos de Frans Hals que representam o Século de Ouro holandês.</p>

A Moça com Brinco de Pérola está no Rijksmuseum?

<p>Não. <strong>Moça com Brinco de Pérola</strong> e <strong>Vista de Delft</strong>, ambas de Vermeer, pertencem ao acervo do Mauritshuis, em Haia — um museu diferente, a cerca de uma hora de trem de Amsterdã.</p>

Quantas obras de Vermeer há no Rijksmuseum?

<p>Quatro: <em>A Leiteira</em>, <em>A Rua</em> (vista de casas em Delft), <em>Mulher Lendo uma Carta</em> e <em>A Carta de Amor</em> — todas na Galeria de Honra, próximas umas das outras.</p>

Por que A Ronda Noturna tem esse nome, se a cena é de dia?

<p>O apelido vem do verniz que escureceu a tela ao longo dos séculos, dando a impressão de uma cena noturna. A restauração do século 20 removeu essas camadas e revelou que Rembrandt pintou, na verdade, uma cena solar — mas o nome popular já estava consolidado e permaneceu.</p>

O Rijksmuseum tem obras de Van Gogh?

<p>Sim, incluindo um <strong>Autorretrato</strong> de 1887 pintado sobre papelão — distinto da coleção do Van Gogh Museum, que fica a poucos quarteirões e concentra a maior parte do acervo do artista em Amsterdã.</p>

Fontes

  1. Rijksmuseum — 2026-07-26
  2. Wikipedia — 2026-07-26
  3. Rijksmuseum — 2026-07-26
  4. Rijksmuseum — 2026-07-26
  5. Rijksmuseum — 2026-07-26
  6. Rijksmuseum — 2026-07-26
  7. Rijksmuseum — 2026-07-26
  8. Rijksmuseum — 2026-07-26
  9. Rijksmuseum — 2026-07-26
  10. Rijksmuseum — 2026-07-26
  11. Rijksmuseum — 2026-07-26
  12. Rijksmuseum — 2026-07-26

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