Journal · Exposições e museus

Quais museus de arte visitar em Tóquio

Tóquio reúne quatro museus que cobrem da arte ocidental à arte digital: o Museu Nacional de Arte Ocidental, em Ueno, único edifício de Le Corbusier no Japão; o Mori Art Museum e o teamLab Borderless, erguidos pela mesma incorporadora em Roppongi e Azabudai Hills; e o Nezu Museum, em Minami-Aoyama, guardião de uma tela célebre da pintura japonesa clássica.

Kakitsubata-zu (Irises), biombo de seis painéis de Ogata Kōrin, cerca de 1701-1705 — tinta, cor e folha de ouro sobre papel, acervo do Nezu Museum, em Tóquio
Irises (Kakitsubata-zu), Ogata Kōrin, cerca de 1701–1705 — tinta, cor e folha de ouro sobre papel. Tesouro Nacional do Japão, no acervo do Nezu Museum. Irises (Kakitsubata-zu), Ogata Kōrin (falecido em 1716). Nezu Museum, Tóquio. Domínio público. Fonte: commons.wikimedia.org

Panorama: quatro endereços que não competem entre si

Diferente de Paris ou Madri, onde os grandes museus ficam concentrados num só eixo caminhável, os principais espaços de arte de Tóquio estão espalhados por bairros que não se sobrepõem — nem em acervo, nem em geografia. Em Ueno, dentro do parque que dá nome ao bairro, fica o Museu Nacional de Arte Ocidental, dedicado à pintura e escultura europeias do fim da Idade Média ao início do século XX. Em Roppongi, no topo da Mori Tower, fica o Mori Art Museum, de arte contemporânea; a poucos minutos dali, em Azabudai Hills — outro empreendimento da mesma incorporadora, a Mori Building —, está o teamLab Borderless, museu de arte digital imersiva. E em Minami-Aoyama, numa área residencial perto de Omotesandō, fica o Nezu Museum, com um dos acervos mais importantes de arte japonesa e do leste asiático anterior à era moderna.

A distância entre os bairros também organiza o roteiro: Ueno pede um dia à parte; Roppongi e Azabudai Hills, por ficarem próximos, cabem no mesmo dia; e Minami-Aoyama, mais residencial e silenciosa, combina com uma visita separada, sem pressa.

Museu Nacional de Arte Ocidental: o único edifício de Le Corbusier no Japão

O acervo do museu nasce de uma história de guerra e diplomacia. O empresário Kojiro Matsukata, presidente do estaleiro Kawasaki Dockyard, começou a colecionar arte em Londres em plena Primeira Guerra Mundial e ampliou as aquisições pela Europa a partir de 1916, chegando a reunir milhares de peças. Cerca de 400 obras ficaram guardadas em Paris, sob a curadoria do então diretor de museu Léonce Bénédite; durante a Segunda Guerra, a França as sequestrou como propriedade inimiga, e elas se tornaram bens franceses em 1951, pelo Tratado de Paz de São Francisco. O governo francês decidiu então devolver a maior parte do conjunto ao Japão como gesto de reaproximação entre os dois países — a devolução, oficializada em 1959, foi o que motivou diretamente a criação do museu para abrigá-las.

Para desenhar o edifício, o Ministério das Relações Exteriores do Japão recorreu, em abril de 1954, a Kunio Maekawa, ex-colaborador do ateliê parisiense de Le Corbusier, que convidou o próprio arquiteto para o projeto. Le Corbusier nunca visitou o Japão — só viu o prédio pronto em fotografias de uma revista de arquitetura — e a obra, entre março de 1958 e 1959, foi supervisionada no local por três de seus ex-colaboradores japoneses: Junzo Sakakura, o próprio Kunio Maekawa e Takamasa Yoshizaka. O edifício aplica o conceito de “Museu de Crescimento Ilimitado”: uma espiral quadrada organizada a partir de um salão central iluminado por claraboias, pensada para, em tese, poder crescer indefinidamente para fora. O terreno tem 1.587 m² e a área construída, 4.399 m²; a proporção do pátio de entrada segue o Modulor, o sistema de Le Corbusier baseado na escala do corpo humano e na proporção áurea. Em 2016, o edifício entrou na lista de Patrimônio Mundial da UNESCO como parte do conjunto “A Obra Arquitetônica de Le Corbusier, uma Contribuição Excepcional ao Movimento Moderno” — 17 sítios em 7 países, e o único deles na Ásia.

Hoje o acervo passa de 6.000 obras de arte ocidental, da Idade Média à metade do século XX, com nomes como Monet, Van Gogh, Degas e Auguste Rodin — cujas esculturas, incluindo fundições de O Pensador e de As Portas do Inferno, fazem parte do núcleo original doado por Matsukata.

Mori Art Museum e teamLab Borderless: arte contemporânea e arte digital nas torres da Mori Building

O Mori Art Museum abriu em outubro de 2003, no topo da Mori Tower, como peça central do complexo Roppongi Hills idealizado pelo incorporador Minoru Mori. Diferente do Museu Nacional de Arte Ocidental, sua identidade não está num acervo fixo — mantém uma coleção permanente de cerca de 460 obras, mas o programa se concentra em grandes exposições temporárias internacionais. A própria instituição declara como missão ser “uma plataforma para artistas” do Japão e do leste asiático, ao lado de nomes internacionais, dentro de um projeto que nasceu junto com o próprio complexo Roppongi Hills.

O teamLab Borderless é outro capítulo da mesma incorporadora. A versão original abriu em Odaiba em junho de 2018 — um espaço sem mapas nem trajeto fixo, onde as obras digitais migravam de uma sala para outra e reagiam à presença do público — e fechou em 31 de agosto de 2022 para dar lugar à reforma da região. Reaberto em Azabudai Hills em 9 de fevereiro de 2024, num projeto conjunto entre a Mori Building e o coletivo teamLab, o museu reúne mais de 50 obras interligadas que formam, segundo a própria instituição, “um mundo sem fronteiras” — peças que evoluíram das versões exibidas em Odaiba, somadas a trabalhos inéditos criados só para o novo espaço.

Nezu Museum: o jardim de Kengo Kuma e a tela de ouro de Ogata Kōrin

O Nezu Museum nasceu da coleção particular de Nezu Kaichirō, empresário e presidente da ferrovia Tobu Railway, reunida ao longo de décadas. Depois de sua morte, o filho criou uma fundação em 1940, e o museu abriu em 1941 no terreno onde ficava a residência da família, em Minami-Aoyama. Boa parte da estrutura original foi destruída em 1945, mas as exposições foram retomadas já em 1946, com obras que haviam sido levadas para um local seguro durante a guerra. O acervo, hoje com cerca de 7.600 peças, é dedicado à arte japonesa e do leste asiático anterior à era moderna, e inclui sete Tesouros Nacionais e 93 Bens Culturais Importantes do Japão. O edifício atual, projetado pelo arquiteto Kengo Kuma, resultou de uma reconstrução iniciada em 2006 e concluída em 2009, com um acesso cercado de bambus que separa a rua movimentada de Omotesandō do jardim interno do museu.

Entre os Tesouros Nacionais do acervo está Irises (Kakitsubata-zu), par de biombos de seis painéis pintado por Ogata Kōrin, da escola Rinpa, por volta de 1701–1705 — tinta, cor e folha de ouro sobre papel, cada painel com 150,9 × 338,8 cm. A composição reduz um campo de íris-do-japão a poucas formas sobre um fundo de ouro, sem paisagem ao redor: só a flor, repetida, contra o metal. A obra é tão associada ao museu que estampa a nota de 5.000 ienes.

O olhar do ateliê

O que eu vejo nesses quatro espaços, como arquiteta

Nunca estive em Tóquio, mas o que descrevo aqui como arquiteta é um contraste que reconheço de longe: os quatro museus resolveram de formas opostas a mesma pergunta sobre o que fazer com o espaço ao redor da obra. O Museu Nacional de Arte Ocidental fecha a arte dentro de uma espiral de concreto pensada para crescer para sempre, mas sem nunca deixar entrar o mundo lá fora. O teamLab Borderless faz o oposto: dissolve a própria ideia de sala, deixando a obra migrar livremente pelo espaço. E o Nezu Museum, com o jardim de bambu que Kengo Kuma desenhou como transição entre a rua e a galeria, trata a chegada até a obra como parte da experiência — não um corredor a ser vencido, mas uma preparação.

É essa terceira lógica que mais se aproxima da minha prática: pensar a moldura antes da obra. Quando trabalho com folha de ouro, como nas peças da série Black & Gold, penso nesse metal do mesmo jeito que a tela de Kōrin usa o fundo dourado — não como decoração, mas como uma segunda luz, que muda de cor conforme o ângulo de quem olha e conforme a luz do ambiente onde a peça vai morar. Nenhuma pintura sobre ouro é a mesma em duas salas diferentes, e é isso que tento levar em conta antes mesmo de começar a pintar.

Perguntas frequentes

Quais são os principais museus de arte para visitar em Tóquio?

Quatro cobrem praticamente todo o espectro: o Museu Nacional de Arte Ocidental, em Ueno, dedicado à arte europeia clássica e moderna; o Mori Art Museum, no topo da Mori Tower em Roppongi, para arte contemporânea internacional; o teamLab Borderless, em Azabudai Hills, para arte digital imersiva; e o Nezu Museum, em Minami-Aoyama, para arte japonesa e do leste asiático anterior à era moderna.

Por que o Museu Nacional de Arte Ocidental é considerado especial mesmo antes de entrar?

Porque o edifício é o único trabalho de Le Corbusier no Japão — e um dos 17 sítios em 7 países que compõem a inscrição da UNESCO dedicada à obra arquitetônica do arquiteto, a única desse conjunto na Ásia. Le Corbusier desenhou o prédio em torno do conceito de 'Museu de Crescimento Ilimitado', uma espiral quadrada que parte de um salão central.

O teamLab Borderless de Azabudai Hills é o mesmo museu que existia em Odaiba?

É uma continuação, não uma cópia. A versão original abriu em Odaiba em 2018 e fechou em agosto de 2022 para dar lugar a obras na região. A nova versão, aberta em Azabudai Hills em fevereiro de 2024, reúne obras que evoluíram das exibidas em Odaiba somadas a peças inéditas — mais de 50 trabalhos interligados, segundo a própria instituição.

O que torna o acervo do Nezu Museum diferente dos outros três?

É o único dos quatro dedicado à arte japonesa e do leste asiático anterior à era moderna, com cerca de 7.600 peças, incluindo sete Tesouros Nacionais. O destaque é Irises, par de biombos do pintor Ogata Kōrin pintados por volta de 1701–1705 com folha de ouro — uma imagem tão associada ao museu que estampa a nota de 5.000 ienes.

Dá para visitar os quatro museus numa única viagem a Tóquio?

Dá, mas rende mais espalhado em pelo menos três saídas: uma para Ueno, uma para Roppongi e Azabudai Hills juntos (ficam a poucos minutos um do outro) e uma para Minami-Aoyama. Tentar encaixar os quatro no mesmo dia significa atravessar a cidade repetidas vezes e sobra pouco fôlego para prestar atenção ao que se vê.

Uma prática que também trabalha com folha de ouro

Como o fundo dourado da tela de Ogata Kōrin no Nezu Museum, a série Black & Gold de Alyne Perfeito usa folha de ouro como uma segunda luz, que muda com o ambiente onde a obra vai morar. Fale com o ateliê e conheça as obras disponíveis.

Obras disponíveis

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