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Artistas que pintam com espátula e textura

Pintores que trabalham com espátula em vez de pincel esculpem relevo físico real na tela, não apenas um efeito de textura pintado — de Van Gogh, que a usava de forma pontual, a Frank Auerbach, citado pela Tate entre os que levaram a técnica ao extremo no século XX. Hoje ela segue viva em obras como Crossing Currents, do Perfeito Studio.

Detalhe de relevo de espátula e pasta de textura em Crossing Currents (80 x 120 cm), técnica mista sobre tela — Alyne Perfeito, Perfeito Studio
Detalhe de superfície de Crossing Currents — planos cortados pela espátula sobre pasta de textura, antes da entrada da cor. Perfeito Studio. Perfeito Studio.

O que muda na superfície quando se pinta com espátula

A espátula é uma lâmina plana e flexível, não um feixe de cerdas — o gesto que ela deixa na tela tende a ser um plano cortado, de aresta nítida, bem diferente da marca fibrosa e direcional que o pincel produz. O resultado físico, quando a camada de tinta ou pasta é espessa o suficiente para que essa marca fique visível mesmo seca, é o que o vocabulário técnico chama de impasto: "uma área de tinta espessa ou com textura, numa pintura", na definição da Tate. O museu acrescenta que a técnica ganhou peso na arte moderna porque "a superfície da pintura devia ter realidade própria, e não ser apenas uma janela ilusionista para um mundo além dela".

É por isso que espátula e relevo interessam além do efeito decorativo: a marca física na tela funciona como uma espécie de caligrafia do gesto — a Tate chama o traço e a textura de "handwriting" que expressa diretamente a emoção de quem pintou. Numa pintura lisa, o olho só lê a imagem; numa pintura com relevo de espátula, o olho também lê a matéria em si, e a luz que muda ao longo do dia revela ou esconde esse relevo.

Van Gogh usava mesmo a espátula, ou isso é lenda?

A imagem popular de Van Gogh é a de um pintor que esculpia céus inteiros só com a espátula, mas o próprio Van Gogh Museum, em Amsterdã, documenta uma prática mais seletiva do que o mito sugere. Segundo o museu, ao pintar Seascape at Les Saintes-Maries-de-la-Mer, Van Gogh usou a espátula para "espalhar a tinta numa camada brilhante e transparente em alguns trechos", criando o efeito de luz solar sobre as ondas. Mas o mesmo registro é direto sobre a frequência do uso: "Van Gogh não usava a espátula com frequência" — e em alguns pontos da tela, a ferramenta chegou a alisar a textura das pinceladas em vez de criar relevo novo.

Ou seja: o relevo mais espesso e mais citado da obra de Van Gogh vem majoritariamente do pincel carregado de tinta pura, não da espátula. Ela entrava como ferramenta pontual — de precisão, para um efeito específico de brilho ou de correção — e não como o instrumento primário da textura pela qual ele é lembrado.

Frank Auerbach, Jean Dubuffet e Leon Kossoff: quando a espátula vira reconstrução

Se Van Gogh usava a espátula com parcimônia, um grupo de pintores do século XX levou a lógica ao extremo oposto. A própria Tate, ao definir impasto, cita nominalmente três nomes de meados do século XX que "levaram o impasto ao extremo": Frank Auerbach, Jean Dubuffet e Leon Kossoff.

O caso de Auerbach é o mais documentado tecnicamente. Segundo registro da própria Tate, ele descreveu o processo dizendo que, "como a maioria dos pintores, uso todo tipo de instrumento (às vezes até as mãos) para aplicar a tinta" — pincéis, espátulas, raspadores de massa corrida e tinta espremida direto do tubo. Suas telas iniciais tinham camadas de óleo tão espessas e construídas que a superfície ficava enrugada, e seu método incluía raspar a pintura inteira e recomeçar: uma obra específica, To the Studios (1990-91), foi "repintada do início ao fim centenas de vezes, raspada e recomeçada seguidamente", segundo a Tate. Para Auerbach, a espátula não era só ferramenta de textura — era o instrumento que permitia apagar e reconstruir a pintura inteira a cada sessão.

Materiais por trás da espátula: da tinta a óleo à pasta de textura contemporânea

Historicamente, a espátula trabalhou sobre tinta a óleo — o meio tradicional do impasto, por secar devagar e manter a consistência de massa por mais tempo. Na prática contemporânea, ateliês que trabalham com acrílica recorrem a gel de alta viscosidade ou a pasta de textura (uma base acrílica com carga mineral) para obter um relevo comparável, com secagem mais rápida e menos peso final sobre a tela — o que facilita trabalhar em grandes formatos sem sobrecarregar o chassi.

O detalhe técnico dessa camada — inclusive o risco real de rachadura quando as camadas secam fora de ordem, e a diferença entre gel de impasto e pasta de modelagem — está tratado com profundidade na página do Journal sobre impasto. Aqui o recorte é outro: quem, historicamente, usou a espátula como assinatura, e o que isso muda no objeto final que chega à parede de um colecionador.

O olhar do ateliê

O olhar do ateliê: a espátula em Crossing Currents

Em Crossing Currents eu não trabalho com tinta a óleo — a espátula ali entra sobre pasta de textura e acrílica, numa sequência que penso antes de tocar na cor. Primeiro construo o relevo físico: aplico a pasta em camadas, deixando secar entre uma e outra, até ter a topografia que quero sob os campos de azul profundo que dominam a tela. Só depois entro com a cor — os tons terrosos, os lampejos de amarelo e branco — e é aí que a espátula troca de função: deixa de esculpir relevo e passa a cortar planos de cor com aresta definida, um gesto que o pincel simplesmente não reproduz do mesmo jeito no mesmo lugar.

O que me interessa nesse método não é repetir o gesto de Van Gogh ou de Auerbach, mas resolver um problema concreto da minha prática: quanto controle eu tenho sobre onde a luz vai bater, e como a leitura da superfície muda conforme quem olha se movimenta na sala. Isso só a espátula me dá — o pincel carregado chega perto, mas nunca corta o plano com a mesma aresta.

Perguntas frequentes

Pintar com espátula é mais difícil que com pincel?

É diferente, não necessariamente mais difícil. A espátula não permite a mesma precisão de linha fina que o pincel, mas dá controle sobre o volume e a direção do relevo que o pincel não replica com a mesma nitidez. O desafio técnico muda de lugar: em vez de controlar a ponta de cerdas, o artista controla o ângulo e a pressão de uma lâmina rígida sobre tinta ou pasta ainda fresca. Frank Auerbach, por exemplo, combinava espátulas, raspadores e pincéis na mesma tela, tratando cada instrumento como resposta a um problema específico da pintura, não como grau de dificuldade.

Quais artistas famosos usavam espátula em vez de pincel?

Nenhum grande nome da história da pintura usou só a espátula, mas vários a integraram de forma marcante. Van Gogh a usou de forma pontual, para espalhar tinta em camadas brilhantes e efeitos específicos de luz, segundo o Van Gogh Museum. Já no século XX, a Tate cita nominalmente Frank Auerbach, Jean Dubuffet e Leon Kossoff como os que levaram o impasto ao extremo, com Auerbach descrevendo o próprio processo como o uso de "todo tipo de instrumento" — espátulas, raspadores e pincéis — para construir camadas de tinta tão espessas que a superfície ficava enrugada.

Espátula e impasto são a mesma técnica?

Não. Impasto é o resultado — uma camada de tinta espessa o bastante para que a marca do instrumento fique visível e crie relevo físico real, segundo a definição da Tate. Espátula é um dos instrumentos que pode produzir esse resultado, ao lado do pincel carregado, do raspador ou até das mãos, como no caso de Frank Auerbach. Ou seja: toda pintura feita só com espátula tende a ter impasto, mas nem todo impasto vem de espátula — boa parte da história do impasto, inclusive em Van Gogh, foi construída majoritariamente com pincel.

Dá para misturar espátula e pincel na mesma obra?

Sim, e é a prática mais comum entre quem trabalha com relevo — inclusive a de Frank Auerbach, que descrevia usar pincéis, espátulas, raspadores de massa corrida e até as mãos na mesma pintura, trocando de instrumento conforme a necessidade de cada trecho da tela. Na prática do ateliê, a combinação também é a regra: a espátula costuma entrar primeiro, para construir a topografia da pasta de textura, e o pincel entra depois, para levar a cor às camadas já esculpidas — como acontece em Crossing Currents.

Obra feita com espátula custa mais que uma pintura lisa?

Não necessariamente pela técnica isolada. O preço de uma obra original tende a refletir sobretudo escala, série e tempo de produção — não o instrumento usado para aplicar a tinta. Crossing Currents, obra da série Terra & Ether com relevo de espátula e pasta de textura sobre 80 x 120 cm, está avaliada em R$ 4.400 no acervo atual do Perfeito Studio — valor definido pela tabela por m² da série, não por um adicional específico de "obra em relevo".

Fontes

  1. Tate — 2026-08-02
  2. Tate — 2026-08-02
  3. Van Gogh Museum — 2026-08-02

Quer ver o relevo de espátula de perto?

Pedimos fotos de detalhe em alta resolução e, quando possível, um vídeo curto mostrando como a luz muda sobre a superfície — antes de qualquer decisão de aquisição.

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Obras disponíveis

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