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Artistas parecidos com Sean Scully: matéria e superfície

Artistas parecidos com Sean Scully (1945) trabalham o mesmo procedimento, não o mesmo assunto: faixas e blocos de cor pintados em camadas espessas, montados como uma arquitetura de encaixes imperfeitos. Scully abandonou a fita adesiva dos anos 1970 pela pincelada livre. Paulo Pasta, pintor brasileiro, foi comparado a ele em ensaio acadêmico da USP sobre pintura contemporânea.

Pintura "A Bedroom in Venice" de Sean Scully — MoMA, Nova York
A Bedroom in Venice, Sean Scully, 1988 — óleo sobre tela em dois painéis, 243,8 x 304,8 cm, doação fracionária e prometida de Agnes Gund ao MoMA, Nova York, registro 84.1991. A Bedroom in Venice, Sean Scully (vivo). The Museum of Modern Art, Nova York. Fonte: moma.org. Direitos reservados ao artista — © Sean Scully.

O que caracteriza a pintura de Sean Scully

Antes de procurar “parecidos com Sean Scully”, vale isolar o procedimento, não o assunto. Scully nasceu em Dublin em 1945 e, aos quatro anos, mudou-se com a família para Londres, onde cresceu. Formou-se pelo Croydon College of Art e depois pela Newcastle University, graduando-se em 1972; no mesmo ano recebeu uma Frank Knox Fellowship para Harvard. Em 1975, uma Harkness Fellowship o levou a Nova York — cidade onde vive desde então e da qual se tornaria cidadão em 1983.

Sua pintura se organiza quase inteiramente em torno da faixa e do bloco de cor. No início dos anos 1970, Scully trabalhava com fita adesiva para construir grades rígidas e cruzadas — o período que ele chama de “supergrid”. Ao longo da década, abandonou a fita e passou a pintar as faixas à mão livre, deixando a imperfeição do gesto entrar na estrutura geométrica. Ele descreve o método assim: “eu pinto de forma bem fina, o que me permite mudar o desenho se eu quiser”. O resultado é uma pintura em óleo sobre linho — depois também sobre alumínio — construída em camadas espessas, onde blocos de cor se encostam uns nos outros sem se fundir, como remendos.

Scully credita à própria cidade parte dessa lógica construtiva: disse certa vez que “o jeito como as pessoas remendam as coisas” em Manhattan alimentou sua forma de compor a tela em blocos encaixados.

Wall of Light: da luz do Iucatã à arquitetura da tela

A série mais extensa de Scully nasceu de um material que ficou guardado quase vinte anos. Em viagens ao Iucatã, no México, em 1983 e 1984, ele pintou uma série de aquarelas fascinado pela forma como a luz animava as paredes de pedra das ruínas maias — uma “cultura de muros e luz”, nas palavras do próprio artista, num contraste direto com a luz contida de sua infância em Londres. Só em 1998, quase duas décadas depois, ele retomou esses esboços e começou a série Wall of Light, hoje com mais de duzentas obras entre óleos, aquarelas, pastéis e água-fortes.

A série resume o que há de mais característico no procedimento de Scully: a faixa deixa de ser só estrutura geométrica e passa a funcionar como luz — cada bloco de cor é também um registro de tempo, como a pedra maia que ele foi ver de perto. O Museu de Arte Moderna de Fort Worth dedicou à série uma exposição de cerca de quarenta pinturas, ao lado de pastéis e aquarelas, entre fevereiro e maio de 2006.

Entre a grade e o gesto: onde Scully se encaixa

A pergunta “geométrico ou informal” não é só categoria de manual — muda o que se procura ao comparar artistas com Scully. A estrutura de sua pintura vem da grade e da faixa, herança que ele reconhece em Piet Mondrian; a paleta de blocos de cor emocionais deve a Mark Rothko; o interesse por padrão e cor densa, a Henri Matisse; e o efeito óptico de faixas repetidas aproxima seu trabalho, à distância, do de Bridget Riley. Mas a execução — pincelada livre, camadas visíveis, bordas que não se alinham — é irredutivelmente gestual, informal no sentido pictórico do termo.

Por geração e por vocabulário formal, Scully costuma ser situado ao lado de Agnes Martin, Robert Ryman e Brice Marden — três nomes ligados ao minimalismo americano que, como ele, trabalharam repetição, grade e economia cromática. A diferença que o próprio meio reconhece é de temperatura: onde esses três reduzem a pintura à estrutura, Scully devolve a ela um peso emocional que o aproxima mais do expressionismo abstrato do que do minimalismo propriamente dito — o mesmo tipo de distinção que separa Agnes Martin, que também recusava o rótulo minimalista, do grupo com quem expunha.

Paulo Pasta: o pintor brasileiro que a crítica acadêmica aproximou de Scully

A comparação mais concreta com um artista brasileiro não vem do mercado, vem da universidade. Em 2008, a pesquisadora Ana Calzavara publicou na revista ARS, do Departamento de Artes Plásticas da ECA-USP, o ensaio “Três pintores contemporâneos: Paulo Pasta/ Sean Scully/ Luc Tuymans” — um estudo que coloca lado a lado o brasileiro Paulo Pasta, o irlandês Sean Scully e o belga Luc Tuymans para pensar como cada um lida com a tradição pictórica a partir de sua própria posição geográfica e histórica.

A aproximação não é só de tema. Paulo Pasta (Ariranha, SP, 1959; formado pela ECA-USP em 1983) constrói pinturas abstratas com paleta cromática reduzida, variações tonais sutis e composições que referenciam elementos arquitetônicos — frisos, colunas — através de marcas raspadas na tela. Reconhecido, entre outros prêmios, com o Prêmio Price Waterhouse de corpo de obra no 25º Panorama de Arte Brasileira do MAM/SP, em 1997, Pasta constrói uma arquitetura de superfície que conversa com a de Scully, ainda que cada um chegue lá por caminho próprio: ele pelo friso e pela coluna, Scully pela faixa e pelo bloco.

Scully, por sua vez, já teve obra exibida no Brasil: a Pinacoteca de São Paulo apresentou, entre 11 de abril e 28 de junho de 2015, a retrospectiva “Sean Scully – 1974-2015”, com 46 obras e curadoria de Jacopo Crivelli Visconti — a primeira grande retrospectiva do artista no país, depois de mostras menores realizadas em 2002.

O olhar do ateliê

O que Silent Interval tem em comum com o bloco de cor de Sean Scully — e o que não tem

Quando alguém me pergunta sobre Sean Scully, penso em Silent Interval. As duas obras trabalham com o mesmo tipo de decisão: reduzir a pintura a poucos elementos — um gesto, um bloco de cor — e deixar o espaço entre eles carregar o peso da composição. Scully constrói essa tensão com faixas que se encostam sem se fundir; eu construo com um único traço escuro que desce por um campo de branco-osso e um bloco de azul que ancora a base da tela.

Não estou aproximando minha trajetória da dele — não tenho quatro décadas de pintura, retrospectiva de museu nem indicação a prêmio internacional. O que reconheço é o mesmo instinto: confiar que a economia de elementos, sustentada por decisão clara, carrega mais presença do que qualquer excesso. É esse instinto — não a faixa em si — que atravessa da pintura dele para o gesto que eu deixo cair na tela.

Perguntas frequentes

O que caracteriza a pintura de Sean Scully?

Faixas e blocos de cor pintados em camadas espessas, organizados como uma arquitetura de encaixes imperfeitos. Scully nasceu em Dublin em 1945, cresceu em Londres, formou-se pela Newcastle University em 1972 e se mudou para Nova York em 1975, tornando-se cidadão americano em 1983. No início dos anos 1970 usava fita adesiva para construir grades rígidas — a fase 'supergrid'; depois passou a pintar as faixas à mão livre, deixando o gesto imperfeito entrar na estrutura geométrica.

Que artistas trabalham com camadas e faixas de cor como Scully?

Por geração e vocabulário formal, a crítica situa Scully ao lado de Agnes Martin, Robert Ryman e Brice Marden — três nomes ligados ao minimalismo americano que também trabalharam grade, repetição e economia cromática. A diferença é de temperatura: eles reduzem a pintura à estrutura; Scully devolve a ela um peso emocional que o aproxima mais do expressionismo abstrato. Suas influências declaradas incluem Piet Mondrian (a grade), Mark Rothko (o bloco de cor emocional) e Henri Matisse (padrão e cor densa).

Sean Scully é abstrato geométrico ou informal?

Os dois ao mesmo tempo, o que torna a pergunta produtiva em vez de ter resposta única. A estrutura vem da grade e da faixa — geometria herdada de Mondrian. Mas a execução é gestual: pincelada livre, camadas visíveis, bordas que não se alinham perfeitamente, sem o controle da fita adesiva que ele próprio abandonou ainda nos anos 1970. É essa mistura — rigor de composição com imperfeição de execução — que distingue Scully tanto do minimalismo quanto da abstração puramente geométrica.

Existem artistas brasileiros com proposta parecida com a de Scully?

Sim, ao menos um, com aproximação documentada academicamente: o pintor Paulo Pasta (Ariranha, SP, 1959), tema do ensaio 'Três pintores contemporâneos: Paulo Pasta/ Sean Scully/ Luc Tuymans', de Ana Calzavara, publicado na revista ARS da ECA-USP em 2008. Pasta trabalha paleta cromática reduzida e composições que referenciam frisos e colunas através de marcas raspadas na tela — uma arquitetura de superfície que conversa com a de Scully, por caminho próprio. Scully, por sua vez, teve retrospectiva na Pinacoteca de São Paulo em 2015.

Onde ver obras de Sean Scully?

Nos Estados Unidos: o MoMA guarda 'A Bedroom in Venice' (1988, óleo sobre tela, dois painéis, 243,8 x 304,8 cm, doação fracionária e prometida de Agnes Gund) e o Art Institute of Chicago guarda 'Heart of Darkness' (1982, óleo sobre tela, três painéis, doação da Society for Contemporary Art desde 1988). Na Inglaterra, a Tate tem 'Coyote' (2000), comprada em 2003. No Brasil, a Pinacoteca de São Paulo apresentou 46 obras suas na retrospectiva 'Sean Scully – 1974-2015', entre abril e junho daquele ano.

Esse tipo de pintura combina com que tipo de ambiente?

Espaços de escala arquitetônica, com parede livre o bastante para a obra funcionar como estrutura, não como acessório — um living amplo, um hall de entrada de pé-direito alto, um escritório de projeto. A faixa e o bloco de cor de Scully pedem distância para se organizarem e proximidade para revelar a camada de tinta. É o mesmo princípio por trás de peças da série Matter & Silence do ateliê, como Silent Interval: um único gesto e um bloco de cor, pensados para ancorar um espaço contemplativo em vez de decorá-lo.

Fontes

  1. TheArtStory — 2026-08-21
  2. TheArtStory — 2026-08-21
  3. Modern Art Museum of Fort Worth — 2026-08-21
  4. The Museum of Modern Art (MoMA) — 2026-08-21
  5. Art Institute of Chicago (API de coleção) — 2026-08-21
  6. Tate Collection (dados abertos, CC0) — 2026-08-21
  7. Pinacoteca de São Paulo — 2026-08-21
  8. SciELO / Revista ARS (Departamento de Artes Plásticas, ECA-USP) — 2026-08-21
  9. Escritório de Arte — 2026-08-21
  10. Perfeito Studio — fonte interna do acervo (src/data/obras.json) — 2026-08-21

Contenção e arquitetura da cor, sem forçar comparação de estatura

Silent Interval trabalha um único gesto e um bloco de cor com a mesma economia de meios — fale com o ateliê para fotos de perto e vídeo da textura em luz natural.

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Obras disponíveis

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