Artistas parecidos com Anselm Kiefer: matéria e escala
Não existe "sucessor" de Anselm Kiefer — mas há um território que outros artistas compartilham com ele: a pintura matérica, herdada do Art Informel de Antoni Tàpies e Jean Dubuffet, em que chumbo, palha, cinza e pasta de textura pesam tanto quanto a cor. É nesse terreno técnico, não no nome, que a comparação com Kiefer faz sentido.
Quem é Anselm Kiefer e de onde vem a matéria pesada
Anselm Kiefer nasceu em 8 de março de 1945 em Donaueschingen, na Alemanha, no fim da Segunda Guerra. Estudou inicialmente pré-direito e línguas românicas na Universidade de Freiburg antes de migrar para a pintura, formando-se em 1969 nas academias de Freiburg e Karlsruhe sob o pintor realista Peter Dreher. Por volta de 1970 também estudou informalmente com Joseph Beuys na Kunstakademie Düsseldorf. Sua obra é classificada dentro do Neoexpressionismo — corrente também descrita como "Novo Simbolismo" — que devolveu a pintura figurativa e emocional à cena nos anos 1970-80, em reação ao minimalismo e à arte conceitual.
O traço que interessa aqui é técnico: Kiefer constrói "superfícies incrustadas e camadas espessas de impasto", em obras que "cresceram progressivamente em escala" ao longo da carreira. A matéria não ilustra o tema — ela é o tema.
Chumbo, palha, cinza, vidro: o vocabulário material de Kiefer
Ao longo da carreira, Kiefer incorporou às telas materiais como goma-laca, chumbo, areia, vidro, tecidos, pele de cobra, cabelo, palha, plantas, flores, sementes e fio de cobre. Ele distressa fisicamente as superfícies — queimando-as ou deixando algumas peças expostas ao tempo do lado de fora do ateliê por semanas — antes de considerá-las prontas.
Um exemplo concreto e catalogado: The Order of the Angels (Die Ordnung der Engel), 1983/84, no acervo do Art Institute of Chicago — óleo, emulsão, goma-laca, palha e chumbo sobre tela, em 330 × 555 cm. Outro é Glaube, Hoffnung, Liebe (1984-1986), na Art Gallery of New South Wales: uma hélice de avião feita de chumbo é fixada sobre a tela pintada, projetando a obra para fora do plano — o metal, pesado demais para voar, vira o próprio assunto do quadro.
A linhagem técnica: da pintura matérica de Tàpies a Kiefer
A comparação mais honesta não é entre Kiefer e um sucessor — é entre ele e a tradição que o antecede. "Pintura matérica" (Matter Painting) descreve qualquer abordagem em que materiais além de pigmento e água entram na composição; é o núcleo técnico do Art Informel do pós-guerra. Antoni Tàpies, uma de suas figuras centrais, construía pinturas de impasto espesso incorporando corda, palha, argila, terra e pó de mármore. Kiefer é entendido como uma continuação dessa linhagem, e não uma ruptura com ela — ele estende os mesmos procedimentos com palha, cinza, chumbo e vidro.
Vale repetir: a aproximação aqui é de procedimento — como a matéria é tratada na superfície — nunca de importância ou de trajetória entre os artistas, que são casos distintos e não comparáveis por esse critério.
Escala como parte da linguagem, não só ambição
Nas obras de Kiefer, a escala funciona como argumento, não como demonstração de força: um campo de 330 × 555 cm de palha e chumbo produz uma relação corporal com quem está diante da tela que uma reprodução pequena não sustenta. É essa mesma lógica — escala em função da matéria, não o contrário — que orienta quem trabalha textura pesada em qualquer porte de tela, incluindo obras bem menores que as dele.
O olhar do ateliê
O olhar do ateliê
No ateliê, essa conversa sobre matéria não é teórica — é o que decido na mesa de trabalho antes da cor entrar. Em Echo of Silence apliquei relevo esculpido em concêntricos antes de qualquer pigmento, para que a luz — não só a tinta — desenhasse o movimento da peça. Em Golden Passage a folha de ouro entra só depois que a pasta de textura já secou, porque o metal reage à luz de um jeito que nenhuma camada plana reproduz. É a mesma decisão de base que qualquer pintura matérica exige: definir se a superfície vai ficar lisa ou vai carregar peso próprio.
Não trabalho na escala arquitetônica de Kiefer — nem pretendo. A obra publicada de maior porte do ateliê hoje tem 120 × 200 cm, longe dos 330 × 555 cm de The Order of the Angels. Mas a pergunta que a formação em arquitetura me ensinou a fazer diante de qualquer parede — quanto peso físico essa superfície precisa carregar para funcionar naquele espaço — é a mesma pergunta que ele responde em escala monumental.
Perguntas frequentes
O que torna a pintura de Anselm Kiefer tão matérica?
A pintura de Kiefer ganha peso porque ele não usa só tinta — mistura areia, cinza, argila, palha e chumbo diretamente na superfície, criando crostas e camadas de impasto grosso. Ele ainda distressa fisicamente as telas, queimando-as ou deixando algumas peças expostas ao tempo do lado de fora do ateliê por semanas. O resultado é uma superfície que funciona como relevo, não como imagem plana — a matéria carrega tanto significado quanto a cor ou a forma.
Que materiais Kiefer costuma incorporar à tela?
Ao longo da carreira, Kiefer incorporou goma-laca, chumbo, areia, vidro, tecidos, pele de cobra, cabelo, palha, plantas, flores, sementes e fio de cobre à superfície de suas telas. Um exemplo catalogado é The Order of the Angels (1983/84), no Art Institute of Chicago: óleo, emulsão, goma-laca, palha e chumbo sobre tela, em 330 × 555 cm. Em Glaube, Hoffnung, Liebe (1984-1986), na Art Gallery of New South Wales, uma hélice de chumbo é fixada sobre a tela, projetando a obra para fora do plano pictórico.
Existem artistas contemporâneos que trabalham textura pesada como Kiefer?
Não há um "sucessor" direto, mas existe uma linhagem técnica real: a pintura matérica (Art Informel), que tem Antoni Tàpies e Jean Dubuffet como figuras centrais, incorporando corda, palha, argila, terra e pó de mármore à tela. Kiefer é entendido como uma continuação dessa tradição, não como uma ruptura com ela. A comparação vale pelo procedimento — tratar a tela como campo de matéria — nunca pela importância de cada artista, que são casos distintos.
Kiefer é considerado expressionista ou neoexpressionista?
Kiefer é classificado como neoexpressionista, dentro de uma corrente também descrita como "Novo Simbolismo". O Neoexpressionismo surgiu nos anos 1970-80 como retomada da pintura figurativa e emocional, em reação ao minimalismo e à arte conceitual. A obra de Kiefer é conhecida pela disposição de confrontar diretamente o passado histórico alemão através de símbolos e materiais carregados de sentido.
Onde ver obras de Anselm Kiefer?
Obras de Kiefer estão em coleções institucionais como Tate (Londres), Art Institute of Chicago, Guggenheim (Nova York, Bilbao e Veneza) e Art Gallery of New South Wales (Sydney), entre outras. Várias dessas instituições mantêm bases de dados públicas com ficha técnica e, em alguns casos, imagem da obra — uma forma prática de estudar a técnica dele antes de olhar referências de textura mais próximas, como um ateliê que trabalha matéria pesada no dia a dia.
Fontes
- Wikipedia — 2026-08-07
- The Broad — 2026-08-07
- Tate — 2026-08-07
- Art Institute of Chicago (API pública de coleção) — 2026-08-07
- Google Arts & Culture / Art Gallery of New South Wales — 2026-08-07
- Wikimedia Commons — 2026-08-07
- TheArtStory — 2026-08-07
Quer ver matéria e textura pesada de perto?
Fale com o ateliê sobre as obras de Alyne Perfeito que trabalham relevo esculpido e folha de ouro — como Echo of Silence e Golden Passage, disponíveis na coleção atual.
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